U turn

Há momentos na vida onde o tempo muda. Não corre da mesma maneira, abranda, acelera, não passa, pára… Quando nasce um filho, incontornavelmente. Avança depressa, sempre mais, todos os dias, voa. Ou quando somos crianças que, ao invés, não existe. Demora-se num conjunto de eternidades. Na adolescência intensifica-se, devagar mas forte, nas emoções e na memória. Nas paixões, um tempo em espiral; nos desamores, um buraco negro; nas lutas, são saltos de anos… para a frente e para trás. E depois há os pontos de viragem. Precipícios temporais. Territórios quase impossíveis… Quando se perde um pai ou uma mãe. Em que o tempo muda de sentido. Em vez de passado e futuro, como até aí, perdemos o meio. E, tal como eles, passamos a ter só o tempo que vem à frente. Sem rede.

À minhã Mãe, que tinha sempre todo o tempo do mundo… e esse mundo todo, em si, também.
[22.11.1953 — 05.07.2023]

everybody wants to go to japan*

“Welcome to Japan! Presente your alien card”… esta ideia de estrangeiro mantem-se durante toda a viagem: “Só percebemos que não percebemos nada”, diz João Bénard da Costa em 15 Dias no Japão, um relato de uma viagem feita em 1979, revisto em 2001, e que mantém hoje uma perfeita actualidade. Ler mais…

breve descrição de nada

antiga avenida descendente de jardins históricos outrora sumptuosos parcialmente destruída e ladeada de estatuária branca profanada com graffittis e tapada por silveiras com amoras em perfeita esquadria com um comprido lago central vedado por um muro de pedra coberto por uma malha de minúsculas flores silvestres vermelhas em forma de lágrima onde as primeiras chuvas se acumulam sobre as ancestrais águas verdes paradas nas quais se adivinha um céu de nuvens alvas desenhadas pela soberba mancha de luz clara e temperada de um pôr-do sol de outono que se desfaz sobre o espelho de água em finos raios ondulados incapazes de serem olhados sem timidez ao longo de um breve e frágil percurso luminoso que não leva a lugar algum. 2009

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impresso-improviso

quem sou eu, espelho meu… sou o curioso que passa, o turista da sé, o morador da rua escura, a peixeira do mercado; sou pintor, esteticista, empreiteiro, informático, estudante, jovem artista. sou o pessoal operário à saída da fábrica confiança. nasci aqui ou sou de cá. português, angolano, indiano, lituano, brasileiro, chinês ou cigano. sou um de 27 mil entre os 220 mil e tal. Ler mais…

a receita da beleza

o engelhar da cara. a aceitação do presente. o consentimento do tempo. a imunidade emocional. o entorpecer dos músculos. a sabedoria dos enganos. a interiorização do limite. a afinação dos sentidos. o falir da memória. o polimento dos princípios. a suavização dos preconceitos. a focalização da energia. o amolecer do corpo. o avigoramento das lutas. a assertividade das palavras. a aceitação da perda. o fintar do cansaço. a eleição do sentimento. a reciclagem da frustração. a superação do vinagre. o diminuir do passo. a relativização dos sonhos. a consciência da opção. a permanência da calma. 2010

+ conclusões banais

links & espelhos

LINKS

Links | Hugo Olim

evento Links
local/data Galeria Lab 65, Porto, 2006

“nada acontece por acaso” disse-lhe naquela noite. e saiu… a frase ia e voltava.  seria tão mais fácil se tudo acontecesse por uma razão. se identificássemos o fio condutor da vida e nos bastasse segui-lo…mas o mundo não gira assim. o acaso bate a lógica aos pontos. e mais a ciência e o destino e a filosofia e a fé… é penoso admitir que nunca seremos capazes de assimilar a ideia de infinito: o mundo não está dentro de coisa nenhuma! …anda apenas a rodar por aí. entretanto a vida acontece. e os caminhos cruzam-se. ou não… deve ser do movimento de rotação! é tão inacreditável como numa mesma comunidade – restrita, porque o é sempre, a nossa aldeia global – nos cruzamos com tanta gente, enquanto caminhamos a par de outros que nunca conheceremos. nisto a frase volta.  pensa no que os une e no que os mantém separados… e olha o mundo em redor. em formato panorâmico. vê todos os que o acompanham lado-a-lado, os que vão chegando, os que vão embora, os que se cruzam, os que nunca conhecerá. os pais, os amigos, os amores. os seres! os seres-que-existem e os seres-platónicos. e conclui que é um bocadinho de muita gente. tanta gente! com quem está, com quem poderia estar e com quem nunca estará. poderia conjugar o verbo em todas as pessoas e tempos: foi as histórias passadas, é intensamente as presentes e será as futuras. seja nos caminhos cruzados, nos mundos sonhados, nas estórias reais, nas verdades relativas, nos caminhos paralelos. somos a energia que resulta desta orgia. somos o desenho que nasce do choque-ou-não destas linhas de alta tensão. somos uma árvore genealógica de afinidades. somos um ciber-genoma. somos nós-e-toda-a-gente num mesmo tempo.  … e o nada-acontece-por-acaso ganha uma nova dimensão. talvez por isso o homem seja assim. um ser descontentamente contente, de mãos dadas com um destino-que-não-existe e que vai traçando a cada dia.

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Alice | Rute Carvalho 

evento festival E Se Esta Rua Fosse Minha
local/data Porto, Outubro 2009 

hoje parti um espelho. um desafio à sorte, que me permite passar para o outro lado. ouso olhar para mim e encontro-me na rua da abundância. da velocidade imposta, da dependência absoluta, dos saberes dispersos, das armas disparadas, da natureza desprezada, das leis duvidosas… se esta rua fosse minha, regava todos os dias o meu jardim! usava o ar parar respirar e viajar, o mar para mergulhar e pescar, o outro para amar, o trabalho para actuar. porque somos todos iguais na efemeridade. porque prisão maior é a da ignorância e da indiferença. porque se a originalidade pode estar em vias de extinção, a criatividade não. desisto então de desvendar o mundo, para apenas me localizar nele. olho ao espelho e estico o dedo: estou aqui.

manual de instruções para conclusões banais

1. precisar de ideias, mais do que de factos e por vezes de pessoas;
2. constatar o óbvio, pois o essencial nem sempre está ali à mão;
3. ter muitas certezas-quase-absolutas, não vá ser a incoerência a chave do equilíbrio;
4. acreditar no impossível, porque a fé está fora de moda;
5. não-se-saber-por-onde-se-vai… mas-saber-que-não-se-vai-por-aí;
6. arriscar o pretensiosismo de responder às perguntas-mãe do universo;
7. ser dramático e, com jeitinho, teatral;
8. ter visto muitos episódios do espaço 1999.. . . . .+ conclusões banais

mãe

Depois de mais de um ano a correr, debaixo de uma espécie de nuvem-barreira que se formou na fugida, comecei, finalmente, a encontrar minha mãe.
Primeiro, na terra onde nasceu, com a minha-avó-sua-mãe, no meio das videiras velhinhas, ou na soleira da porta da casa onde nos sentamos nas vindimas, e me lembro dela a contar ao Vicente como gostava de ficar ali a ver as estrelas, que pareciam coladas à enorme montanha-parede que se ergue em frente à casa, ritual que cumpria com a sua bisavó-Marquinhas, no tempo das coisas simples.
Depois, num Bolero de Ravel, ouvido na terceira pessoa, no rádio de um colega de trabalho, lá ao longe, de forma repetida, hoje, e depois amanhã, como se voltasse ou simplesmente quisesse dizer olá…
E naquela toalha-de-chá bordada por ela, no meio de tantas outras da sua enorme coleção, mas aquela em particular, com umas pequenas flores cor-de-rosa no centro de cada quadrado e um remate de renda em rosa-claro, manchada de uso, gasta, que já não via há tanto tempo e que, por um instante, me sugou para uma infância feliz, com a família grande à volta da mesa.
Ou na sua letra, na receita dos bolinhos de côco escrita à mão num pedaço de papel ainda meio enfarinhado, que me salta da gaveta quando procurava outra coisa.
Não haverá como preencher o vazio ou abafar a saudade, mas são de felicidade estes encontros. O deus-nas-pequenas-coisas, nas memórias, nossas e dos nossos, em detalhes inesperados e desprovidos.
Uma espécie de visita a esse tempo das coisas simples onde nunca estive.