a receita da beleza

o engelhar da cara. a aceitação do presente. o consentimento do tempo. a imunidade emocional. o entorpecer dos músculos. a sabedoria dos enganos. a interiorização do limite. a afinação dos sentidos. o falir da memória. o polimento dos princípios. a suavização dos preconceitos. a focalização da energia. o amolecer do corpo. o avigoramento das lutas. a assertividade das palavras. a aceitação da perda. o fintar do cansaço. a eleição do sentimento. a reciclagem da frustração. a superação do vinagre. o diminuir do passo. a relativização dos sonhos. a consciência da opção. a permanência da calma.

 
2010

era uma casa…

 

escura. ou então estava sempre de noite. não havia luminosidade que reflectisse naquelas paredes e que secasse os complexos padrões em degradé cinza que se estendiam verticalmente à beira da janela por onde a água entrava a potes nos dias violentos de chuva daquele ano infernal. as divisões multicavam-se no espaço quase ao mesmo tempo em que o próprio sonho procurava dali uma saída. havia uma espécie de corredor principal a partir de onde se concentravam todos os compartimentos de facto utilizados: um canto para a cozinha, um recanto para o quarto, uma ponta para a banheira. com ou sem portas entre eles, não me lembro. depois existia um quadrado, literalmente um quadrado de madeira, com uma escada-de-emergência-tipo-americana que dava para um outro lado qualquer. e à direita, abria-se uma porta, que descia para um meio-piso abaixo, para um outro corredor, que fazia lembrar um bar em forma de carruagem de comboio, onde parei uma vez numa vila do alto alentejo interior. tinha janelas este lugar, mas outra vez estava azul-escuro lá fora. sentia frio porque não tinha gente e os espaços precisam de corpos e de movimento para devolver o calor em efeito de estufa. havia ali esquecimento, naquela que era ainda a mesma casa por onde entrara neste sonho. mas havia um sítio ainda mais esquecido. porque não era necessário, não era prático. e eu nem sabia muito bem como lá chegar. tinha de atravessar uma espécie de pátio interior, feito de terra vermelha, mais marroquino que os próprios souks do magrebe. e vendiam-se coisas lá. marroquinarias. logo mais à frente havia uma luz branca e um acesso. eram afinal uns degraus de pedra branca, quase gelada, que sugeriam qualquer coisa próxima de uma gruta debaixo de neve. a porta desse outro aposento da mesma casa, um local quase proibido, tantas eram as nenhumas vezes em que se lá entrava, conduzia a uma velha sala senhorial que cheirava a mofo. o soalho não rangia, o papel de parede em tons predominantemente verdes não estava danificado e os velhos móveis pesados não estavam estragados. da sala acedia-se a uma outra sala através de uma porta de ligação. e daí para outra. e ainda para outra… parecia não ter fim ou formar um círculo, mas não o descobri. era a minha casa dentro do meu sonho e os meus os amigos estavam a chegar em visita.

2009.

breve descrição de nada

antiga avenida descendente de jardins históricos outrora sumptuosos parcialmente destruída e ladeada de estatuária branca profanada com graffittis e tapada por silveiras com amoras em perfeita esquadria com um comprido lago central vedado por um muro de pedra coberto por uma malha de minúsculas flores silvestres vermelhas em forma de lágrima onde as primeiras chuvas se acumulam sobre as ancestrais águas verdes paradas nas quais se adivinha um céu de nuvens alvas desenhadas pela soberba mancha de luz clara e temperada de um pôr-do sol de outono que se desfaz sobre o espelho de água em finos raios ondulados incapazes de serem olhados sem timidez ao longo de um breve e frágil percurso luminoso que não leva a lugar algum.

2009

hoje parti um espelho

 

 
hoje parti um espelho.
um desafio à sorte, que me permite passar para o outro lado. ouso olhar para mim e encontro-me na rua da abundância. da velocidade imposta, da dependência absoluta, dos saberes dispersos, das armas disparadas, da natureza desprezada, das leis duvidosas…
se esta rua fosse minha, regava todos os dias o meu jardim! usava o ar parar respirar e viajar, o mar para mergulhar e pescar, o outro para amar, o trabalho para actuar. porque somos todos iguais na efemeridade. porque prisão maior é a da ignorância e da indiferença. porque se a originalidade pode estar em vias de extinção, a criatividade não.
desisto então de desvendar o mundo, para apenas me localizar nele.
olho ao espelho e estico o dedo: estou aqui.

 

projeto alice, através do espelho | evento se esta rua fosse minha, concept rute carvalho e texto mafalda martins, outubro 2009

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o homem de barbas

desce e explica-me porquê. porque te sonho se não existes. porque espero. desce e vem sonhar comigo. inventar novas incoerências. grita-me! não me deixes dormir. ensina-me a aceitar a generosidade dos dias. anda comigo. vamos retribuir todos os fins que nos permitem começar de novo. desce e vem. curtir a oportunidade de aqui estar. corre. mostra-me como se satisfazem os acasos não que acontecem. desce e dá-me a mão. oferece-me um futuro. se não desceres, subo eu.

2009

o peso do beijo

o beijo é um bem-querer. entre amigos um adeus ou um olá. nos amantes, a paixão.
basium é como se diz em latim. o toque dos lábios em qualquer coisa, em alguém.
o beijo é tão antigo quanto homem. nos primitivos era para os deuses. nos gregos e romanos para toda a gente.
o beijo é química: 9 mg de água, 0,7 g de albumina, 0,18 g de substâncias orgânicas, 0,711 mg de gorduras e 0,45 mg de sais. e matemática: 29 músculos em movimento, 12 quilos de pressão, 3 sentidos em acção.
tudo é beijo. a ciência do beijo, o fobia do beijo, a doença do beijo, a academia do beijo, o dia mundial do beijo. o beijo devia mandar!
o beijo é uma arte. casablanca no cinema, romeu e julieta na literatura. 30 versões ilustradas no kamasutra.
o beijo é o sapo que vira príncipe! o beijo de língua, o beijo francês. mata o desejo, já dizia o poeta aleixo. é uma linguagem, um diálogo universal. e não se aprende, sabe-se.
o beijo pode ser um pesadelo. tem uma boca por trás. dentes podres, mau hálito e herpes. 250 vírus e bactérias, a gripe.
o beijo e-m-a-g-r-e-c-e! 12 a 15 calorias em 10 segundos. 400 em 5 minutos. é o beijo de olhos de don juan. ou o beijo de olhos fechados. o primeiro-beijo. a memória: sabe, sente e cheira para sempre.
um beijo dá-se em todas as línguas: bacci, beso, bisous kiss, kuss e Kuchizuke. e tem sotaque: beijoê no puarto, veijo em biána, bêjo no alentejo. em lisboa são treuze beijos encarnados.
a planta é o beijo-de-frade. o beijinho, um doce tradicional ou uma concha do mar. um beijo na mão é um gesto romântico. o beija-mão, um sinal de reverência.
o beijo é um acto ilícito. pode ser roubado. ou proibido. mas não acarreta prisão.
o beijo é partilha. um processo de transferência. um choque frontal. é infinito: 24 mil por pessoa na vida; 2 biliões de possibilidades na terra.
um beijo não se recusa. um beijo na face pede-se e dá-se!
 
projeto impresso improviso | evento memórias de um centro em festa, centro de memória de vila do conde, setembro 2009

medo é memória

gatoavis

 
medo é paralisia, timidez, ansiedade.
rédea curta.
medo têm todos os homens.
acima da raça, crença, classe, nacionalidade, clube. além do rótulo.
medo é condição humana. faz-nos acreditar.
motor do sonho, do conhecimento, da conquista.
uma questão de sobrevivência.
medo tem do outro lado a liberdade.
mundo de heróis.
iguais e diferentes, vencedores.
o princípio da esperança.
medo não tem no seu pior a morte.
dela nasce a memória.
na história, no livro, no disco rígido, no coração.
medo mau é o que temos de nós.
do ridículo. da solidão. de um beijo no escuro.
mede vence-se com partilha, troca.
um processo de transferência. de frontalidade em rede.
medo é do que somos feitos.
eterna matéria efémera.
 
2009