impresso-improviso

editorial (manifestos).

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fotografias de Ana Pereira

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O impressoimproviso nasce da vontade de dar corpo e voz a pessoas reais, às suas visões do quotidiano e da vida contemporânea, com um sentido político mas também enquanto projecto documental, que se constrói enquanto questionamento da realidade, no apelo social e na vontade de intervenção.

É um projecto artístico site-specific, que ajusta a sua praxis — ideia, construção formal do projecto e opções finais de apresentação — aos locais onde é realizado, em função das condições geográficas e dos contextos social, político e cultural. Assume-se como uma instalação de carácter performativo e documental. O público não é convidado a contemplar, mas a ser a obra; a conhecer o projecto, a ouvir o que se propõe como manifesto, a partilhar opiniões sobre os temas discutidos e a ser fotografado. O objecto artístico desaparece após a sua conclusão, permanecendo apenas enquanto registo documental.

Um projecto de Ana Pereira (fotografia), Geovane Sousa (manipulação) e Mafalda Martins (editorial), levado a cabo entre 2007 e 2012.

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QUEM SOU EU, ESPELHO MEU

evento Manobras no Porto +
local/data Miradouro da Sé, Porto, Setembro 2011
 
sou o curioso que passa, o turista da sé, o morador da rua escura, a peixeira do mercado; sou pintor, esteticista, empreiteiro, informático, estudante, jovem artista. sou o pessoal operário à saída da fábrica confiança. nasci aqui ou sou de cá. português, angolano, indiano, lituano, brasileiro, chinês ou cigano. sou um de 27 mil entre os 220 mil e tal. sou uma mulher de rabo de cavalo e calças demasiado justas ou um homem engravatado e com cheiro caro. sou mais velho do que novo e mais novo pobre do rico. sou um dos dois mil que pedem comida ou certamente endividado. sou um de tantos nomes escritos na história, ferreirinhas das vinhas, outros quantos duques e cegos e oliveiras centenários. sou um documento, uma prova, um facto. há de tudo aqui, em 15 freguesias e 41 quilómetros quadrados. há talha dourada, grandes excursões e aldrabões. há 250 quilómetros de avenidas nos mapas e ruas porcas que cheiram mal. há prédios em ruína, entre as casas e a reabilitação. há museus grandes e edifícios da modernidade, contentores temporariamente permanentes… metro de verdade? há 350 mil pessoas a cada ano em serralves e o património cultural da humanidade. há condomínios de luxo e casas emparedadas, metade da cidade numa rua com menos de seis metros de largura. há sempre beleza, o porto sentido e a fauna fluvial. há ponte e o outro lado do rio, para ver melhor a cidade. sinos nas horas de ponta, bandeiras nas varandas, azulejos nas paredes, clarabóias nos telhados. há o fado das vielas, o rap da ribeira e os sotaques serrados. há bailes em massarelos, feiras na vitória, compras na cedofeita, sem-abrigo no bolhão, rusgas na banharia, bebedeiras na picaria e muita droga no aleixo. há 187 dias por ano de neblina. há cafés com história a meias com lojas gourmet, tascas antigas partilhadas com galerias. há o cheiro das castanhas a assar. há futebol, campeão, e roupa a secar. mas não há frase sem palavrão. há iscas, tripas e vinho. há noites cheias de gente e domingos sem absolutamente ninguém. há gunas, goleadas, guerras, ganzas, garotas, gatos e outras palavras por “g”. há gaivotas que atacam cães, um rasto de porcaria de pomba para limpar. há cercos vencidos e um espírito de guerrilha a cultivar. há terraços zen e quintais abandonados. há vidros partidos, sushi-bares e barcos rabelos. há paredes para graffitar e colar. quem sou, espelho meu? uma miragem, um reflexo, um canto de paisagem. uma cidade para conhecer. sou um porto onde chegar.
 
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QUAL É O TEU CRIME?

evento Plano B +
local/data Porto, Dezembro 2008
 
havia um muro bem alto que separava o mundo de uma caverna escura, onde se mantinha prisioneiro um grupo de homens desde sempre. acorrentados e privados de luz, as sombras dos outros homens que passavam frente à caverna eram a única coisa que alguma vez haviam visto. a alegoria de platão tem tantos séculos quantos os necessários para nos lembrar da nossa eterna condição de prisioneiros. prisioneiros do bem e do mal, das armas que disparamos, da comida que desperdiçamos, das tecnologias que inventamos. prisioneiros das leis que roubamos para enriquecer ou para comer e que infringimos para estacionar e para não pagar. prisioneiros da verdade e da felicidade, seja lá isso o que for… prisioneiros da animalidade e do nascer-comer-cagar-foder-procriar-dormir-e-morrer. prisioneiros do consumo, do trabalho, do dia e da noite, da razão e da falta dela, da paixão, da ambição, do ar parar respirar e viajar, do mar para mergulhar e pescar. dos vícios também. e das linguagens, das etnias, das massas corporais, das fisionomias, das diferenças sexuais. prisioneiros de um mundo que volta e meia ameaça explodir. prisioneiros do comodismo, a viver atrás da sombra, a ver o mundo da secretária, a deixar a vida acontecer na televisão. prisioneiros da gravidade, pois de outra forma seríamos eventualmente uma matéria inerte a vaguear pelo espaço. e não fosse assim, talvez acabássemos prisioneiros de um futuro pré-condicionado, em exércitos de homens perfeitos e todos iguais, videovigiados a tempo inteiro. livre é aquele que pensa. crime é ser prisioneiro da ignorância ou da indiferença. porque a sombra, afinal, não era tudo… havia uma imagem. e, à frente dela, uma pessoa.
 
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PRODUTO HUMANO

eventos
Rabiscuits Bienal de Arte Experimental +
E Se Esta Rua Fosse Minha +
local/data Alcobaça, Setembro 2008 + Porto, Outubro 2008
 
somos nós e estamos todos aqui. expostos nas prateleiras, brinquedos de um sistema. somos os últimos preços de um saldo de verão. nós, a profissão, a idade, a experiência e um ou outro defeito. somos bons produtos, mão-de-obra especializada, boa apresentação e educação aprimorada, saber dos livros e das línguas acumulado no passivo da memória, facilidade de relacionamento, de adaptação e de integração. somos mercadoria. quantos designers vale um mecânico? quantos mecânicos vale um reformado? quantos reformados vale uma empregada de limpeza? quantas empregadas de limpeza vale um futebolista? a fórmula é esta: características físicas + capacidade intelectual : herança familiar x educação + saúde x Y = valor humano! o “Y” é a variável arbitrária para o número de profissionais na mesma área, o grau de exigência manual do trabalho, o investimento intelectual, a a experiência acumulada. Y é ainda o factor influência ou, em última análise, a sorte!… no final, valemos sempre X, com % de desconto. será esta má distribuição da riqueza que nos torna humanos? quem sabe… … …mas que estes cálculos não nos afastem do caminho, porque precisamos de comprar todas aquelas coisas que nos vão tornar na pessoa que gostaríamos de ser.
  

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REVOLUÇÃO DOS (ES)CRAVOS

evento Maus Hábitos +
local/data Porto, Abril 2008
 
o nosso tempo. um tempo de abundância, de velocidade, de eficácia. de consumo imediato, descartável e com prazo de validade. um tempo com pressa… sem-muito-tempo. um tempo para ter… telemóvel, laptop, ipod. muitos cds, muitos livros. carro, casa e roupa lavada. consumo, consumo, consumo. d-i-n-h-e-i-r-o… sem ele, o tempo não vale muito. um tempo para saber tudo. ideias diversas e saberes fragmentados, algo dispersos e por vezes contraditórios. conjuntos de momentos impressos em padrão mosaico. um tempo para reter pouco. na massa cinzenta colectiva, orgânica…ou não. se saiu mal, apaga-se, se ficou bem, arquiva-se. na memória, no cartão… um tempo para respigar, reciclar, reutilizar. porque a autenticidade está em vias de extinção, mas a criatividade não. um tempo que pede por uma nova revolução! um tempo para ser… um genoma de bites, uma matriz de sentimentos, uma tabela de experiências, uma relação de culturas, um molde de raças, um protótipo de fé. e sempre o link para outra coisa qualquer… um tempo de verdade? na verdade… não interessa. não há tempo! a vida é um improviso.  

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O PESO DO BEIJO

evento Memórias do Centro em Festa +
local/data Centro de Memória de Vila do Conde, Setembro 2009
 
o beijo é um bem-querer. entre amigos um adeus ou um olá. nos amantes, a paixão. basium é como se diz em latim. o toque dos lábios em qualquer coisa, em alguém. o beijo é tão antigo quanto homem. nos primitivos era para os deuses. nos gregos e romanos para toda a gente. o beijo é química: 9 mg de água, 0,7 g de albumina, 0,18 g de substâncias orgânicas, 0,711 mg de gorduras e 0,45 mg de sais. e matemática: 29 músculos em movimento, 12 quilos de pressão, 3 sentidos em acção. tudo é beijo. a ciência do beijo, o fobia do beijo, a doença do beijo, a academia do beijo, o dia mundial do beijo. o beijo devia mandar! o beijo é uma arte. casablanca no cinema, romeu e julieta na literatura. 30 versões ilustradas no kamasutra. o beijo é o sapo que vira príncipe! o beijo de língua, o beijo francês. mata o desejo, já dizia o poeta aleixo. é uma linguagem, um diálogo universal. e não se aprende, sabe-se. o beijo pode ser um pesadelo. tem uma boca por trás. dentes podres, mau hálito e herpes. 250 vírus e bactérias, a gripe. o beijo e-m-a-g-r-e-c-e! 12 a 15 calorias em 10 segundos. 400 em 5 minutos. é o beijo de olhos de don juan. ou o beijo de olhos fechados. o primeiro-beijo. a memória: sabe, sente e cheira para sempre. um beijo dá-se em todas as línguas: bacci, beso, bisous kiss, kuss e Kuchizuke. e tem sotaque: beijoê no puarto, veijo em biána, bêjo no alentejo. em lisboa são treuze beijos encarnados. a planta é o beijo-de-frade. o beijinho, um doce tradicional ou uma concha do mar. um beijo na mão é um gesto romântico. o beija-mão, um sinal de reverência. o beijo é um acto ilícito. pode ser roubado. ou proibido. mas não acarreta prisão. o beijo é partilha. um processo de transferência. um choque frontal. é infinito: 24 mil por pessoa na vida; 2 biliões de possibilidades na terra. um beijo não se recusa. um beijo na face pede-se e dá-se! 

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O PROTESTO É UM PRETEXTO

evento No Coração de Viana
local/data Viana do Castelo, Julho 2010 
 
reivindico o direito de protestar, sob qualquer pretexto! protesto contra a apatia da humanidade, o desrespeito pelos velhos, o preço do pão. contra a especulação imobiliária e as reformas miseráveis, a ignorância e outras armas poderosas, o desrespeito pela emigração. protesto contra a desigualdade de direitos e oportunidades, contra os pêlos nas virilhas e axilas e cabelos secos e descolorados, e as calças de cinta descida em senhoras de corpos bem alimentados. protesto contra a falta de cuidado na cultura e educação, contra os salários dos jogadores de futebol, as SCUTs e as portagens, o preço das gasolineiras e a sua liberalização, a negligência das petrolíferas e o rock’n’roll. protesto contra a despromoção do planeta plutão, contra a ditadura da ASAE, e a impossibilidade dos não-católicos provarem a comunhão. protesto contra a inexistência de extraterrestres e de milagres, contra a fome, a guerra e todas as formas de exclusão, e quem não usa desodorizante no verão. protesto contra os hambúrgueres de sabe-se lá o quê e outros achados, contra o feijão verde de estufa, os legumes-bébé e os amidos modificados, os concertos-piquenique organizados por presidentes de câmara e hipermercados. protesto contra os amores não correspondidos, os políticos, os empresários e os abusos de poder, contra os piropos foleiros, a poesia de andaime e os casos perdidos, o “serviço temporariamente indisponível” e “o programa não está a responder”. protesto contra a perda de memória e as inevitabilidades da velhice, contra as rugas, estrias e celulite, as inumeráveis falhas do serviço de saúde e outra tanta imundice, contra a violência sobre as mulheres e a calvície. protesto contra tudo o que nos faz sofrer, contra o mau gosto e as parolices e, como dizia fellini, “reivindico o direito de me contradizer! não quero estar privado do direito de dizer tolices”.