sonhos

outra vez. com medo e a correr. mas num cenário diferente. terrífico sem ser negro. um-mundo-no-fim-do-mundo. um dia sem amanhã, anunciado que fora numa conversa com a minha mãe. choveriam monolitos. viriam do espaço nesse último dia de um dois-mil-e-qualquer-coisa-que-há-de-vir. blocos de pedra gigantes. muitos e envoltos em bolas de fogo. e nós sabíamos. sabíamos e aceitávamos a inevitabilidade. as nossas casas iam desaparecendo. e as pessoas. sem rasto. sem ruína. ausentavam-se. não era a guerra. não era a morte. era tão somente um fim. estava frio. o vento ambicioso empoeirava a areia no ar. já não fugíamos. olhávamos o céu. desviávamo-nos dos blocos de pedra. sem esforço. sem inteligência. e pensávamos na perda. dos nossos. doía, mas não amargurava. a dada altura os monolitos eram afinal pedaços de monumentos. de uma arcada gótica, de uma muralha árabe… sempre a cair. brutais. alinhados que vinham do céu como uma forte chuva tropical. e o chão sempre a tremer. e as bolas de fogo. então deixamos de olhar. não valia a pena esperar. eu e aqueles que eu não conhecia. numa casa onde nunca estivera. éramos todos anónimos nessa altura. e sentamo-nos à mesa. inventamos um conforto. servimo-nos de uma refeição quente e enchemos os copos de vinho. num silêncio ébrio. fosse aquele o último momento e tudo estava certo. 2009

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where is my mind estavam em paris. e de novo o mundo ia acabar. os americanos tinham andado a matar terroristas e alguém resolvera dar-se à ira. em todas as grandes cidades do mundo caia naquela hora de um dia desta semana um edifício monumental. quais ícones da nossa clamorosa europa em imersão. implosões e explosões sucediam-se com uma precisão científica, destruindo apenas e religiosamente cada alvo identificado. os povos assistiam em absoluto silêncio ao espectáculo que mais parecia um simulacro de efeitos especiais. em paris caia um museu, um qualquer. não havia vidro entre eles – os dois atónitos que estavam de mãos-dadas – e a edificação que em segundos seria anunciada ruína. também não havia música. lembro-me de me acalmar e de pensar que em portugal, país quase incógnito, nada caíra e todos dormiam serenos. e num ápice estava cercada por cães escuros, encolerizados. em boa verdade tão parecidos com o meu gato-preto-com-genes-de-rua, que me esperava em casa saudoso e faminto. 2010

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freud explica… sonhei que fugia. aflita, apavorada. de mãos cerradas, não fosse perder os filhos. sim, os filhos. que eram, na verdade, da terra mais do que meus. fugia com as mãos fechadas não fosse deixar cair as sementes. esses filhos que escondia nas mãos. os embriões-em-forma-de-pevide que, uma vez espetados na terra castanha fértil, cresceriam que nem um pé-de-feijão, mas em forma de corpo humano, de gente, com pernas e braços e olhos e coração. corria estrada fora em velocidade arrastada. fugia de quem me iria fazer mal. de quem me abriria as mãos à força e me levaria para sempre os filhos. que, uma vez plantados, cresceriam saudáveis. longe, sem nunca conhecer a mãe. 2011

 

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