pausas

breve descrição de nada antiga avenida descendente de jardins históricos outrora sumptuosos parcialmente destruída e ladeada de estatuária branca profanada com graffittis e tapada por silveiras com amoras em perfeita esquadria com um comprido lago central vedado por um muro de pedra coberto por uma malha de minúsculas flores silvestres vermelhas em forma de lágrima onde as primeiras chuvas se acumulam sobre as ancestrais águas verdes paradas nas quais se adivinha um céu de nuvens alvas desenhadas pela soberba mancha de luz clara e temperada de um pôr-do sol de outono que se desfaz sobre o espelho de água em finos raios ondulados incapazes de serem olhados sem timidez ao longo de um breve e frágil percurso luminoso que não leva a lugar algum. 2012

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a receita da beleza o engelhar da cara. a aceitação do presente. o consentimento do tempo. a imunidade emocional. o entorpecer dos músculos. a sabedoria dos enganos. a interiorização do limite. a afinação dos sentidos. o falir da memória. o polimento dos princípios. a suavização dos preconceitos. a focalização da energia. o amolecer do corpo. o avigoramento das lutas. a assertividade das palavras. a aceitação da perda. o fintar do cansaço. a eleição do sentimento. a reciclagem da frustração. a superação do vinagre. o diminuir do passo. a relativização dos sonhos. a consciência da opção. a permanência da calma. 2013

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quando a noite chega todos os dias o livro estava desamparado no centro da mesa de madeira. a luz ténue que teimava em trespassar a cortina reflectia o branco da capa. ela atravessava a sala vezes sem conta. para-lá-e-para-cá. os tacões dos sapatos não muito altos interrompiam as melodias simples que soavam na rádio e impunham-se apressados. como quem procura aquilo que nunca vai encontrar. talvez não existisse… por vezes, o livro, daqueles de letra pequenina, percorria-se nas suas páginas. nos dias em que o vento azulava a casa entre janelas. há muito que ela olhava o livro. mas nunca parava. para-lá-e-para-cá. sempre com pressa. talvez se corresse… um dia o livro estava no chão. algo que tombara-em-cadeia o deixara imobilizado na página 42. ela pegou no livro e leu: “hoje nunca é o dia de amanhã”. olhou a janela e reparou que o sol se tinha posto. talvez o tempo parasse… quando voltou a abrir o livro para reter na memória a mensagem, as páginas estavam lisas e as palavras haviam caído em monte no chão. 2009

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