a vida é bela

a eternidade num cacho de uvas [à avó maria]

come esta uva. são da videira que ela plantou, disse-lhe a mãe.
fora aquela a quem chamavam de “coimbresa”. porque lá da cidade do centro viera parar a esta aldeia improvável. covas do douro de trás-os-montes.

era meiga e fina a senhora, conta-lhe a avó. mas casaram-na com o tio. um velho ruim, jogador. um dia caiu do cavalo e morreu. conta-lhe a avó, sobre a sua avó. e da grande paixão que veio procurar por ela então, no comboio, mas que foi embora declinada… quis ficar sozinha a senhora. emancipada e independente.

33 anos, filhas, sobrinhas e netas. terra, casa e trabalho. energia. a avó marquinhas, lembra-lhe a mãe. que ficava com ela à porta de casa a olhar o monte em frente. na altura em que a mãe acreditava que no dia em que o subisse alcançaria as estrelas.

alegria nas palavras que evocam a senhora. que por apenas 6 anos não conheceu a sua trineta. a que neste último outono comeu a uva da videira que um dia a avó-coimbresa plantou. mais de cem anos depois. da ramada que, velhinha, continua a brotar. como se ensaiasse a eternidade. 2012

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férias uma astronauta, uma vaqueira e uma varina. uma casa sem telhado para se verem as estrelas mais brilhantes. um monte sobre as terras altas do alentejo. um piano admiravelmente triste e uma melancia alcoólica. e mais uma piscina com muitas gentes. e um pedaço de rio sem absolutamente ninguém. uma cegonha e uma águia no céu, um presumido javali e uma cobra imaginária. o pereira e a dona belita e a mulher do presidente da junta. um teatro que não se chega a entrar e uma actriz que se gosta de conhecer. azinheiras e sobreiros, pão e vinho. uma mesa requintada para motivar  partilha. a imaginação livre e sempre a esperança. uma fotografia dos anos setenta com três rockersdestruídos. barrigas cheia de mimo e risadas altas. uma lágrima descontinuada para lembrar que a existência é real. 2007

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a casa da baixa

chegar a casa: 1. encontrar um lugar-quase-legal (não fosse o parquímetro… ou será parcómetro?); 2. ranger os dentes ao arrumador que insiste em pedir “moedinha” várias a vezes ao dia sem perceber que o alvo é sempre o mesmo; 3. cumprimentar o guarda-nocturno do quarteirão que, no cenário das casas escuras da baixa iluminada a amarelo, remete para londres há 50 anos atrás, ainda que sem o estripador… ou não; 4. dar um cigarro ao segundo junkie que reconhece a vizinhança e diz boa-noite; 5. abrir a porta e apanhar um susto-de-morte com os dois adolescentes do bairro mais próximo enrolados-em-beijos nas escadas; 6. sentir o cheiro bom dos cozinhados do vizinho brasileiro do terceiro andar; 7. abrir a porta, trancar e relaxar.

sair de casa: 1. abrir a porta, trancar e apanhar o elevador-íntimo-assim-baptizado-pelo-valter; 2. esperar os segundos-da-praxe para que a porta se abra, esperando não ser hoje o dia-não das avarias, pois o telemóvel está sem saldo; 3. seguir para o carro, fazer figas para que esteja lá, sem mossa ou estrago e, já agora, sem multa, pois já passa das 9:00; 4. abrir o iogurte-líquido-de-kiwi e beber; 5. sorrir-em-amarelos para o polícia municipal que está com cara de ainda não ter começado a caçada; 6. dizer bom-dia ao rapaz giro das chaves, à senhora-sempre-à-porta-da-mercearia e ao vizinho da loja de ferragens; 7. entrar no carro, ligar o rádio e seguir. 2008