everybody wants to go to japan*

“Welcome to Japan! Presente your alien card”… esta ideia de estrangeiro mantem-se durante toda a viagem: “Só percebemos que não percebemos nada”, diz João Bénard da Costa em 15 Dias no Japão, um relato de uma viagem feita em 1979, revisto em 2001, e que mantém hoje uma perfeita actualidade.

* O tempo é um elemento central na visita. Não é linear. E facilmente nos perdemos nele… Tão depressa percorremos em mood blade runner os viadutos, os arranha-céus e as luzes de Tóquio ou Osaka, como experimentamos a sensação de tocar a eternidade nos templos de Nara, onde tudo parece imutável, de acordo com a forma como foi desenhado e construído há dois mil anos atrás. “O tempo desagua no tempo, numa volta que nada tem em comum com o nosso sentido rectilíneo da história. Tudo existe em camadas”, diz Bénard da Costa.

Porque, e continuando as ideias do crítico de cinema, o Japão é um país ocidentalizado, mas diferente de qualquer país ocidental; faz parte da Ásia, mas distingue-se de qualquer outra sociedade asiática. Os contrastes. Também vamos andar entre eles durante toda a viagem. Entre a tecnologia e a história, entre a modernidade e a tradição, entre a velocidade e a quietude… Ao limite do nonsense.

E então vamos parar a um bar foreign friendly no antigo bairro do mercado negro de Golden Gai, em Tóquio, onde completamos o espaço disponível com uma bailarina em trabalho part-time, um Fernando-Pessoa-que-nunca-conheceu-o-escritor com perfeito sotaque british, um casal que acaba de sair do Love Hotel da esquina, dois jovens embriagados de sake e com uma sede maior de comunicar com o Ocidente usando os seus gadgets de bolso e o Google Translator e o dono comunista que serve vinho palestiniano. E falamos de Portugal, país que lhes desperta curiosidade, da história, do vinho e do fado, que tanto gostam, mesmo sem nunca terem ouvido falar da Amália.

Ordem, rigor e brio, ao milímetro e ao segundo. Nos jardins os centenários de Sogenchi ou na floresta de bambu em Quioto, como em qualquer mínimo quadrado verde de Tóquio, tudo minuciosamente pensado e colocado, numa harmonia que nos eleva a um estado Zen. Na complexa rede da Metropolis, em altura e pelos subterrâneos, nos edifícios que nunca se tocam, nos veículos sem condutor. No funcionário da estação, que faz uma vénia a todo o comboio que chega e que parte e que, sem dizer uma palavra de inglês, se desdobra em gentilezas para nos assegurar na linha certa.

A comida. O Kaisebi, a haute cuisine japonesa, uma espécie de menu de degustação da tradição gastronómica nipónica. O paraíso dos atuns, que fica seguramente nos restaurante de sushi de Tsukiji Fish Market… O chá verde, que ganha toda uma nova dimensão, que se estende aos gelados, aos noodles, aos doces. O okonomiyaki ou o ramen. Tudo e em todo o lado, restaurantes, departments, metro, lojas de conveniência… Nunca mais, uma vez de regresso, a comida vai ter este sabor.

Deixamo-nos contagiar. Da manga, aos jogos ou à cultura pop. No karaoke, onde chegamos a espreitar a mítica sala de Bill Murray e Scarlett Johansson.

Depois vamos a norte. Experimentar a velocidade dum shinkansen, o comboio-bala, para depois entrar num lento comboio regional que levará horas para nos deixar a uma caminhada pelos arrozais do Mer do Japon, tranquilo e quente, como a música dos Air. Estamos em Kinosaki Onsen, onde nos despimos de preconceitos para mergulhar nas águas termais quentes, lado a lado com os locais, homens para um lado e mulheres para outro, num ritual de limpeza que é muito mais interior do que exterior. Uma espécie de Gerês lá do sítio, mas onde se come caranguejo, se veste kimono e se dorme num ryokan.

Um dormir diferente, o do Japão… em pé, em qualquer lado, no metro, a toda a hora, em gavetas ou até na rua. Sem perigo. Porque não se sente medo. Nem mesmo no metro Shinjuku, onde passam por dia mais de 3,5 milhões de pessoas.

Sempre nos extremos. Até nos fetiches. Na gueixa da rua antiga de Ponto-cho, em Quioto, que passeia com o seu homem, qual acompanhante premium a cumprir a tradição milenar. Ou nos Maid Café Girls, onde as adolescentes servem os bolinhos-em-forma-de-pokémon na boca dos seus clientes… ao ponto de existirem carruagens e autocarros Women Only.

Um outro livro, O Japão é um Lugar Estranho, de Peter Carey, cujo título original será Wrong About Japan, mostra-nos de novo que aqui nada é o que parece e que a cada dia vamos compreender menos esta cultura tão rigorosa e impenetrável.

E é precisamente assim que chegamos ao fim da viagem, com uma sensação de profunda ignorância sobre o Japão. Que nos perdoem todos os erros de interpretação ou de leitura… Chegamos a casa absolutamente perdidos na tradução.

2015

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