na-idade-dos-porquês

 
na idade dos porquês calem-me os porquês! não vai ser especial a minha vida. não vai ser única a minha figura, nem eterna a minha memória. mas é nisso que sempre me fizeram crer! que me ditaram os livros, as aventuras épicas e os momentos de amor. as viagens, os lugares, os cenários. os filmes de super-heróis e os sonhos mal-amanhados. o conhecimento. o ninho certo dos pais e dos avós. a ciência ao serviço da medicina e o aumento da esperança de vida. a comunicação, o aquecimento central e os cremes-anti-rugas. o conforto. … e estaria tudo tão bem não fosse a maldita obsessão da liberdade. e da verdade. como se fossem
objectos capazes de ser pegados em mãos. eterna é a inquietação que daí nasce. que faz correr-para ou fugir-de. nem sei!… tão frenético é o ritmo sucessivo e confuso dessa auto-consumição, da qual me torno dependente, como se de adrenalina se tratasse. a certa altura vejo-me aqui como em qualquer outro lugar. i get into the wild… tal como no filme. onde a busca da essência do espírito humano se faz pelas experiências, pela necessidade de ensaiar uma vida individual e solitária, e que acaba, no limite da morte que nos colhe a todos, na constatação de uma felicidade que afinal só se vive partilhada. não é preciso ir tão longe, creio. lá sem nada, aqui com tudo, estão sempre próximos os extremos. porque a busca é justamente a mesma: essa cobiçada verdade dos livros, essa presumida liberdade dos filmes, esse pretenso dom que nos tornará especial a vida ou nela nos fará particulares. a dado ponto, esses de-onde-venho, para-onde-vou, o-que-faço-aqui revelam-se porquês absolutamente inúteis… sobretudo porque há outras importantes perguntas-com-resposta para fazer. 2008
 
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o homem de barbas desce e explica-me porquê. porque te sonho se não existes. porque espero. desce e vem sonhar comigo. inventar novas incoerências. grita-me! não me deixes dormir. ensina-me a aceitar a generosidade dos dias. anda comigo. vamos retribuir todos os fins que nos permitem começar de novo. desce e vem. curtir a oportunidade de aqui estar. corre. mostra-me como se satisfazem os acasos não que acontecem. desce e dá-me a mão. oferece-me um futuro. se não desceres, subo eu.  2009

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violentamente bom a vida é demasiado curta para andar metida no bolso. para ficar contida no riso ou no choro, no grito ou no palavrão. demasiado breve para se perder nas hipóteses. para não ser experimentada ao pormenor. a vida é demasiado efémera para ficar dobrada na gaveta. para ser gasta em contemplação. demasiado rápida para ser poupada. para ser defendida dos excessos. a vida é demasiado entrelaçada para ser explicada com coerência. para ser analisada em números. demasiado rica para imobilizar opções. para ser deixada à sorte. a vida é demasiado valiosa para ser desperdiçada. para não ser esmiuçada no amor e na emoção. demasiado habitada por pessoas para cair em solidão. para ser evitada. a vida é demasiado cruel para ser recebida com tolerância. para ser sentida sem revolta. demasiado cheia para ser vivida na ignorância. para ser dividida com a indiferença. a vida… é demasiado! por ser o equilíbrio no limiar da loucura. por ser a intensidade que bate a leveza. por ser o nosso compromisso maior. 2008
 
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valha-me o deus em que não acredito estamos em tempos de crise. o clima a mudar, as bolsas a cair, o petróleo a aumentar, a banca a estourar, a violência a subir e o estado a intervir. a democracia a falir? e o capitalismo a falhar. o que vem a seguir? em todos os tempos tivemos os pensadores à frente dos sistemas. nomadismo-feudalismo-monarquia-fascismo-comunismo-democracia-capitalismo-e-outros-ismos… sempre novos modelos sociais-económicos-e-políticos a experimentar. desta vez não. terá a velocidade imposta pelas tecnologias ultrapassado a capacidade de renovação dos paradigmas? a teoria existencialista do homem-vencido-pela-máquina pode,  finalmente, cair em saco roto. eu que nasci no tempo-das-fraldas-de-pano poderei não acabar na era-do-turismo-espacial. mas no oposto: numa nova idade da sobrevivência. se o sistema do vil tostão fracassar, de que nos serve um interruptor na parede? a comida não está nos bancos! riqueza maior é a de quem tem um quadrado de terra para plantar e uma galinha para engordar. e ciência, a de quem sabe dos ventos e das chuvas. a reposição do equilíbrio natural que assaltamos… qual ironia. 2007
 
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as-pequenas-coisas comecei a escrever com hífenes quando li o-deus-das-pequenas-coisas. a autora indiana fazia-o com maiúsculas. há conceitos que cabem melhor dentro destes comboios-de-palavras. uma espécie de compactação de ideias que responde às necessidades de velocidade e de imediatismo. e de superficialidade, pois assim não é preciso dizer tanto… até porque já não há tanto que dizer. e muito pouco para inventar. nada que imite a descoberta da roda ou do fogo… nem tão pouco que simule algo infinitamente menor do que isso. o nosso momento, esta migalha-de-tempo-de-vida, não é um épico! e a diferença, creio, está nas pequenas-coisas. nestas que estão aqui à mão. na palavra para inverter a-crise-e-o-mundo-e-o-preço-dos-combustíveis-e-a-falta-de-valores, mas isso fica para o próximo post. na liberdade de acção para reinventarmos a pessoa, essa que é a valia de não termos nascido na idade média. na possibilidade de atravessarmos a rua para descobrir o outro lado… e conhecermos a nossa sombra, individual e única. mas há um trajecto implícito: caminhar pela estrada antes de atravessar. e lá, no fim do percurso, que é sempre apenas mais um, podemos então morder a tarde-de-amora-com-sabor-a-amor e, quem sabe, roubar o beijo de alguém… 2007