descontextos

a-alice-hoje-não-é-a-mesma-de-amanhã acordo e penso em seis coisas impossíveis. penso na opção e na acção. acordo e não compreendo a impossibilidade das coisas. penso se não sei aceitar. acordo e chateio-me com o destino. penso nas opções e nos limites entre a vontade e a capacidade de fazer. acordo e revolto-me com os desencontros e com o sem número de distâncias entre o possível e o desejável. penso se deixei de saber contar. acordo-me e vejo-me ao espelho. e penso nos anos e nos dias, e que hoje nunca é o dia de amanhã, ou que nunca mais é amanhã, ou que o amanhã se calhar já passou. acordo e pondero deixar-me dormir. penso no conforto dos sonhos, na comodidade de um mundo sem abismos. acordo e deixo-me demorar. penso que somos tantos os adormecidamente inquietos. acordo sempre atrasada, e penso que nunca é tarde, porque todos os dias o mundo está em rotação. 2010

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uma incongruência debaixo da pele há coisas que só acontecem aos gatos. engasgam-se com o pêlo, perseguem o rabo, assustam-se com o próprio susto. explode-lhes o coração. são incongruências debaixo de pêlo, estes felinos intrinsecamente domáveis. que comem rações gourmet de dia e caçam pardais à noite, qual carnívoro inato a fingir que gosta de peixe. caem sempre de pé, excepto de todas as vezes em que se deixam enganar. são sempre amáveis, excepto de todas as vezes em que se esquecem que têm garras. cabem sempre onde lhes passa o bigode, excepto de todas as vezes em que deixam o rabo de fora. cuidam e gostam de ser cuidados, excepto quando se recordam que são predadores. são praga, animal de estimação e arma de desinfecção. têm 7 vidas, mas deixam-se apanhar pela luz. morrem de curiosidade. não sabem o que são. explode-lhes o coração. 2011

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o ego e o tempo o tempo é um relógio que se mede em intensidade. o ritmo, que pode significar vontade, é aquele que bate no coração. cria a ilusão, indica a verdade. ou não. é um contratempo. uma outra batida. sentida. que, tal como na música, exige uma atenção redobrada, não vá tropeçar na nota errada. ou pior… sair do tempo e perder-se no nada. 2010

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sinfonias e sintonias desde que soubera que beethoven era surdo e que huxley era cego, que fora obrigada a ouvir e a ler o mundo de outra forma. não são os sons que se musicam em delicadas entoações, nem as frases que se transformam em romances sublimes. há no silêncio intensos tons e no escuro complexas representações. são sinfonias e sintonias. a harmonia no som e a reciprocidade na palavra. a sinfonia como sinónimo de sintonia. em qualquer criação ou situação. como se os circuitos eléctricos se misturassem todos na mesma frequência. como se pegássemos em todas as notas musicais e em todas as palavras, as espalhássemos pela imensidão do universo e elas se voltassem a encontrar! numa nona sinfonia ou num admirável mundo novo. por predestinação, por fé, por acidente, por amor… ou por acaso. 2009

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