impresso-improviso

quem sou eu, espelho meu… sou o curioso que passa, o turista da sé, o morador da rua escura, a peixeira do mercado; sou pintor, esteticista, empreiteiro, informático, estudante, jovem artista. sou o pessoal operário à saída da fábrica confiança. nasci aqui ou sou de cá. português, angolano, indiano, lituano, brasileiro, chinês ou cigano. sou um de 27 mil entre os 220 mil e tal.

sou uma mulher de rabo de cavalo e calças demasiado justas ou um homem engravatado e com cheiro caro. sou mais velho do que novo e mais novo pobre do rico. sou um dos dois mil que pedem comida ou certamente endividado. sou um de tantos nomes escritos na história, ferreirinhas das vinhas, outros quantos duques e cegos e oliveiras centenários. sou um documento, uma prova, um facto. há de tudo aqui, em 15 freguesias e 41 quilómetros quadrados. há talha dourada, grandes excursões e aldrabões. há 250 quilómetros de avenidas nos mapas e ruas porcas que cheiram mal. há prédios em ruína, entre as casas e a reabilitação. há museus grandes e edifícios da modernidade, contentores temporariamente permanentes… metro de verdade?

há 350 mil pessoas a cada ano em serralves e o património cultural da humanidade. há condomínios de luxo e casas emparedadas, metade da cidade numa rua com menos de seis metros de largura. há sempre beleza, o porto sentido e a fauna fluvial. há ponte e o outro lado do rio, para ver melhor a cidade. sinos nas horas de ponta, bandeiras nas varandas, azulejos nas paredes, clarabóias nos telhados. há o fado das vielas, o rap da ribeira e os sotaques serrados. há bailes em massarelos, feiras na vitória, compras na cedofeita, sem-abrigo no bolhão, rusgas na banharia, bebedeiras na picaria e muita droga no aleixo. há 187 dias por ano de neblina. há cafés com história a meias com lojas gourmet, tascas antigas partilhadas com galerias. há o cheiro das castanhas a assar. há futebol, campeão, e roupa a secar. mas não há frase sem palavrão. há iscas, tripas e vinho. há noites cheias de gente e domingos sem absolutamente ninguém. há gunas, goleadas, guerras, ganzas, garotas, gatos e outras palavras por “g”. há gaivotas que atacam cães, um rasto de porcaria de pomba para limpar. há cercos vencidos e um espírito de guerrilha a cultivar. há terraços zen e quintais abandonados. há vidros partidos, sushi-bares e barcos rabelos. há paredes para graffitar e colar. quem sou, espelho meu? uma miragem, um reflexo, um canto de paisagem. uma cidade para conhecer. sou um porto onde chegar.*

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O impressoimproviso é um projecto artístico site-specific, que ajusta a sua praxis — ideia, construção formal do projecto e opções finais de apresentação — aos locais onde é realizado, em função das condições geográficas e dos contextos social, político e cultural. Assume-se como uma instalação de carácter performativo e documental. O público não é convidado a contemplar, mas a ser a obra; a conhecer o projecto, a ouvir o que se propõe como manifesto, a partilhar opiniões sobre os temas discutidos e a ser fotografado. O objecto artístico desaparece após a sua conclusão, permanecendo apenas enquanto registo documental.

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evento Manobras no Porto +
local/data Miradouro da Sé, Porto, Setembro 2011

 

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