Tag Archives: editorial

manual de instruções para conclusões banais

1. precisar de ideias, mais do que de factos e por vezes de pessoas;
2. constatar o óbvio, pois o essencial nem sempre está ali à mão;
3. ter muitas certezas-quase-absolutas, não vá ser a incoerência a chave do equilíbrio;
4. acreditar no impossível, porque a fé está fora de moda;
5. não-se-saber-por-onde-se-vai… mas-saber-que-não-se-vai-por-aí;
6. arriscar o pretensiosismo de responder às perguntas-mãe do universo;
7. ser dramático e, com jeitinho, teatral;
8. ter visto muitos episódios do espaço 1999.. . . . .+ conclusões banais
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impresso-improviso

quem sou eu, espelho meu… sou o curioso que passa, o turista da sé, o morador da rua escura, a peixeira do mercado; sou pintor, esteticista, empreiteiro, informático, estudante, jovem artista. sou o pessoal operário à saída da fábrica confiança. nasci aqui ou sou de cá. português, angolano, indiano, lituano, brasileiro, chinês ou cigano. sou um de 27 mil entre os 220 mil e tal. Ler mais…

férias

pontedesor2

uma astronauta, uma vaqueira e uma varina. uma casa sem telhado para se verem as estrelas mais brilhantes. um monte sobre as terras altas do alentejo. um piano admiravelmente triste e uma melancia alcoólica. e mais uma piscina com muitas gentes. e um pedaço de rio sem absolutamente ninguém. uma cegonha e uma águia no céu, um presumido javali e uma cobra imaginária. o pereira e a dona belita e a mulher do presidente da junta. um teatro que não se chega a entrar e uma actriz que se gosta de conhecer. azinheiras e sobreiros, pão e vinho. uma mesa requintada para motivar a partilha. a imaginação livre e sempre a esperança. uma fotografia dos anos setenta com três rockers destruídos. barrigas cheia de mimo e risadas altas. uma lágrima descontinuada para lembrar que a existência é real. 2009

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hoje parti um espelho

 

hoje parti um espelho.
um desafio à sorte, que me permite passar para o outro lado. ouso olhar para mim e encontro-me na rua da abundância. da velocidade imposta, da dependência absoluta, dos saberes dispersos, das armas disparadas, da natureza desprezada, das leis duvidosas…
se esta rua fosse minha, regava todos os dias o meu jardim! usava o ar parar respirar e viajar, o mar para mergulhar e pescar, o outro para amar, o trabalho para actuar. porque somos todos iguais na efemeridade. porque prisão maior é a da ignorância e da indiferença. porque se a originalidade pode estar em vias de extinção, a criatividade não.
desisto então de desvendar o mundo, para apenas me localizar nele.
olho ao espelho e estico o dedo: estou aqui.

 
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o peso do beijo

o beijo é um bem-querer. entre amigos um adeus ou um olá. nos amantes, a paixão.
basium é como se diz em latim. o toque dos lábios em qualquer coisa, em alguém.
o beijo é tão antigo quanto homem. nos primitivos era para os deuses. nos gregos e romanos para toda a gente.
o beijo é química: 9 mg de água, 0,7 g de albumina, 0,18 g de substâncias orgânicas, 0,711 mg de gorduras e 0,45 mg de sais. e matemática: 29 músculos em movimento, 12 quilos de pressão, 3 sentidos em acção.
tudo é beijo.

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medo é memória

 

medo é paralisia, timidez, ansiedade.
rédea curta.
medo têm todos os homens.
acima da raça, crença, classe, nacionalidade, clube. além do rótulo.
medo é condição humana. faz-nos acreditar.
motor do sonho, do conhecimento, da conquista.
uma questão de sobrevivência.
medo tem do outro lado a liberdade.
mundo de heróis.
iguais e diferentes, vencedores.
o princípio da esperança.
medo não tem no seu pior a morte.
dela nasce a memória.
na história, no livro, no disco rígido, no coração.
medo mau é o que temos de nós.
do ridículo. da solidão. de um beijo no escuro.
mede vence-se com partilha, troca.
um processo de transferência. de frontalidade em rede.
medo é do que somos feitos.
eterna matéria efémera.
 
2009
 
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mulher-de-emergência 4.2

a mulher moderna levanta-se cedo, mas atrasa-se sempre. maquilha-se e rodopia perfeita em sapatilhas o dia inteiro. empenha-se naquele trabalho que faz de si a mulher realizada e independente, que lhe permite conduzir-se em quatro-rodas-autónomas nesse final de tarde às compras… para chegar a casa e cozinhar um delicioso jantar de coisas frescas e verdes. a mulher moderna come fruta e não tem vida para ginásios. arranja as sobrancelhas e depila as pernas e encravam-lhe os pêlos nas virilhas das tantas depilações que faz. a casa da mulher moderna é um palacete onde gasta as mãos porque não ganha o suficiente para pagar a uma mulher-a-dias que lhe lave, limpe, seque e engome a vida. ainda assim, a casa da mulher moderna está limpa, a mobília perfumada e as roupas estendidas nos armários ou noutro sítio qualquer do seu percurso de utilidade para seduzirem o corpo que as há-de vestir de enfiada na manhã seguinte. Ler mais…

as-pequenas-coisas…

empacotado.jpg

comecei a escrever com hífenes quando li o-deus-das-pequenas-coisas. a autora indiana fazia-o com maiúsculas. há conceitos que cabem melhor dentro destes comboios-de-palavras. uma espécie de compactação de ideias que responde às necessidades de velocidade e de imediatismo. e de superficialidade, pois assim não é preciso dizer tanto… até porque já não há tanto que dizer. e muito pouco para inventar. nada que imite a descoberta da roda ou do fogo… nem tão pouco que simule algo infinitamente menor do que isso. o nosso momento, esta migalha-de-tempo-de-vida, não é um épico! e a diferença, creio, está nas pequenas-coisas. nestas que estão aqui à mão. na palavra para inverter a-crise-e-o-mundo-e-o-preço-dos-combustíveis-e-a-falta-de-valores, mas isso fica para o próximo post. na liberdade de acção para reinventarmos a pessoa, essa que é a valia de não termos nascido na idade média. na possibilidade de atravessarmos a rua para descobrir o outro lado… e conhecermos a nossa sombra, individual e única. mas há um trajecto implícito: caminhar pela estrada antes de atravessar. e lá, no fim do percurso, que é sempre apenas mais um, podemos então morder a tarde-de-amora-com-sabor-a-amor e, quem sabe, roubar o beijo de alguém… como no filme. 2006

 

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