… vou ali comprar tabaco à bósnia!

Quatro portugueses, quatro mochilas, um carro, um saca-rolhas e uma toalha de piquenique. Uma breve visita aos Balcãs numa viagem de estrada, cafunhos e vinho.

A Croácia. Aterrar em Zagreb, num Agosto tórrido e sem gente nas ruas super-organizadas do centro e nos bairros austeros de traço socialista da periferia. Na praça principal, o inusitado: os Pauliteiros de Miranda. Não fosse bater a saudade…

Seguir as vinhas até Plesivica, para um almoço de iguarias locais, com pais-a-tirar-filhos-da-cama para indicar um pequeno produtor, Drago Rezek, uma quinta antiga mas muitos anos ao serviço de um produtor comum, o Estado, com um Pinot Noir que se tentaria trazer para casa. Pelo caminho, um encontro: o Portugizac. Uma casta dita austríaca mas muito portuguesa com certeza…

Depois o Litoral. Porec, Pula, Senj, Zadar, Biograd, Sibenik, Ptimodtrn, Trogir, Split, Catvac. Pequenas cidades medievais feitas de pedra limpa e brilhante, tal-e-qual uma cena de filme, como se o tempo, as guerras, os regimes e os terramotos nunca tivessem passado ali. Mas passaram, de tal modo que as ruas e casas e castelos são afinal reconstruções sobre reconstruções, ao pormenor e absoluto rigor, não houvesse uma orgulhosa identidade maior a manter. Outro encontro: o Sr. Mário-de-lá. Mais vinhos, queijos e trufas para o jantar, e a noção de que a Croácia-pós-Jugoslávia poderá não ser melhor…

Depois os parques. Plitvicka Jezera, Prirode Vransko Jezera. Um com milhares de pessoas, outro sem absolutamente ninguém. Água doce e vários tons de azul e verde, caminhadas, mergulhos e merendas.

Depois as ilhas. Hvar. Um pequeno paraíso do Adriático, onde se estica uma mão para colher uma folha de manjericão e outra para levar um bocadinho de rosmaninho. Duas provas, um pequeno porto à beira-mar e uma cave, Zlatan e Tomic, e a Plavac Mali, uma das principais castas croatas.

Muitos postais do pôr-do-sol e um mar quente sobre a rocha. Cafunhos de manhã, à tarde e à noite. E o que se faz na hora-e-meia de fila para o barco? Vai-se a banhos…

O Montenergo. Com apenas 11 anos de vida (pertencia à Sérvia até 2006), não faz parte da União Europeia, mas usa o Euro. Um trajecto pelos fiordes apresenta a incrível baía de Kotor, com os seus cruzeiros e iates. E a escalada, com esforço, dos 1500 degraus do castelo de São Geovani. Um facto: um cenário que parece o do Game of Thrones. E foi mesmo.

A Bósnia. Tudo o que vimos até aqui? Não tem nada a ver. O Adriático é uma uma estância de férias desde os tempos antigos. Mais para dentro a realidade é outra. Mostar é uma pequena vila com uma ponte medieval de onde saltam os rapazes bósnios com o patrocínio da Red Bull. Depois uma floresta que se atravessa sem mapa, em estradas arriscadas entre zonas de minas por desmantelar. Quase que se vê um coelho pelo ar… Gentes esquecidas nos planaltos cimeiros e uma encruzilhada onde se pára para um café… turco.

Depois Sarajevo, Meeting of Cultures, lê-se no chão do centro da cidade. São turcos, otomanos, austríacos e russos; são muçulmanos, católicos e ortodoxos; são bósnios, croatas e sérvios; eslavos-e-jugoslavos. No passado, rebentou aqui uma guerra mundial. Hoje são colinas com centenas de cruzes brancas partilhadas com outras centenas de estacas cinzentas. Não se chega a ir à Sérvia, mas soa a frase do Underground: Guerra só é guerra quando irmão mata irmão… Num bar muçulmano, uma conversa: o turismo europeu, coreano e muçulmano mais a modernidade, reabilitação e construção, paredes meias com os edifícios esburacados até à alma. A tentar compreender…

Depois a montanha e as estradas más e de repente uma nave espacial, que é afinal uma escultura soviética gigantesca, para não deixar esquecer. Em todo o lado o porco-no-espeto que quase não se chega a provar. Na saída, um risco no mapa que indica uns quantos quilómetros de terra de ninguém. Passa-se a fronteira só para para confirmar: ruas desertas, casas vazias, buracos de bala e um quiosque. O que se foi lá fazer? Comprar tabaco.

Depois Dubrovnik para preparar o regresso, outra cidade-postal. Em jeito de anedota com final feliz, os quatro portugueses, um mexicano e um alemão perdem-se na labiríntica escadaria onde se escondem os alojamentos e bebe-se, então, o último Pinot Noir.

2015