Category Archives: conclusões banais

manual de instruções para conclusões banais

1. precisar de ideias, mais do que de factos e por vezes de pessoas;
2. constatar o óbvio, pois o essencial nem sempre está ali à mão;
3. ter muitas certezas-quase-absolutas, não vá ser a incoerência a chave do equilíbrio;
4. acreditar no impossível, porque a fé está fora de moda;
5. não-se-saber-por-onde-se-vai… mas-saber-que-não-se-vai-por-aí;
6. arriscar o pretensiosismo de responder às perguntas-mãe do universo;
7. ser dramático e, com jeitinho, teatral;
8. ter visto muitos episódios do espaço 1999.. . . . .+ conclusões banais

breve descrição de nada

antiga avenida descendente de jardins históricos outrora sumptuosos parcialmente destruída e ladeada de estatuária branca profanada com graffittis e tapada por silveiras com amoras em perfeita esquadria com um comprido lago central vedado por um muro de pedra coberto por uma malha de minúsculas flores silvestres vermelhas em forma de lágrima onde as primeiras chuvas se acumulam sobre as ancestrais águas verdes paradas nas quais se adivinha um céu de nuvens alvas desenhadas pela soberba mancha de luz clara e temperada de um pôr-do sol de outono que se desfaz sobre o espelho de água em finos raios ondulados incapazes de serem olhados sem timidez ao longo de um breve e frágil percurso luminoso que não leva a lugar algum. 2009

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a receita da beleza

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o engelhar da cara. a aceitação do presente. o consentimento do tempo. a imunidade emocional. o entorpecer dos músculos. a sabedoria dos enganos. a interiorização do limite. a afinação dos sentidos. o falir da memória. o polimento dos princípios. a suavização dos preconceitos. a focalização da energia. o amolecer do corpo. o avigoramento das lutas. a assertividade das palavras. a aceitação da perda. o fintar do cansaço. a eleição do sentimento. a reciclagem da frustração. a superação do vinagre. o diminuir do passo. a relativização dos sonhos. a consciência da opção. a permanência da calma. 2010

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42

quando a noite chega todos os dias o livro estava desamparado no centro da mesa de madeira. a luz ténue que teimava em trespassar a cortina reflectia o branco da capa. ela atravessava a sala vezes sem conta. para-lá-e-para-cá. os tacões dos sapatos não muito altos interrompiam as melodias simples que soavam na rádio e impunham-se apressados. como quem procura aquilo que nunca vai encontrar. talvez não existisse… por vezes, o livro, daqueles de letra pequenina, percorria-se nas suas páginas. nos dias em que o vento azulava a casa entre janelas. há muito que ela olhava o livro. mas nunca parava. para-lá-e-para-cá. sempre com pressa. talvez se corresse… um dia o livro estava no chão. algo que tombara-em-cadeia o deixara imobilizado na página 42. ela pegou no livro e leu: “hoje nunca é o dia de amanhã”. olhou a janela e reparou que o sol se tinha posto. talvez o tempo parasse… quando voltou a abrir o livro para reter na memória a mensagem, as páginas estavam lisas e as palavras haviam caído em monte no chão. 2009

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violentamente bom

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a vida é demasiado curta para andar metida no bolso. para ficar contida no riso ou no choro, no grito ou no palavrão. demasiado breve para se perder nas hipóteses. para não ser experimentada ao pormenor. a vida é demasiado efémera para ficar dobrada na gaveta. para ser gasta em contemplação. Ler mais…

férias

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uma astronauta, uma vaqueira e uma varina. uma casa sem telhado para se verem as estrelas mais brilhantes. um monte sobre as terras altas do alentejo. um piano admiravelmente triste e uma melancia alcoólica. e mais uma piscina com muitas gentes. e um pedaço de rio sem absolutamente ninguém. uma cegonha e uma águia no céu, um presumido javali e uma cobra imaginária. o pereira e a dona belita e a mulher do presidente da junta. um teatro que não se chega a entrar e uma actriz que se gosta de conhecer. azinheiras e sobreiros, pão e vinho. uma mesa requintada para motivar a partilha. a imaginação livre e sempre a esperança. uma fotografia dos anos setenta com três rockers destruídos. barrigas cheia de mimo e risadas altas. uma lágrima descontinuada para lembrar que a existência é real. 2009

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freud explica…

sonhei que fugia. aflita, apavorada. de mãos cerradas, não fosse perder os filhos. sim, os filhos. que eram, na verdade, da terra mais do que meus. fugia com as mãos fechadas não fosse deixar cair as sementes. esses filhos que escondia nas mãos. os embriões-em-forma-de-pevide que, uma vez espetados na terra castanha fértil, cresceriam que nem um pé-de-feijão, mas em forma de corpo humano, de gente, com pernas e braços e olhos e coração. corria estrada fora em velocidade arrastada. fugia de quem me iria fazer mal. de quem me abriria as mãos à força e me levaria para sempre os filhos. que, uma vez plantados, cresceriam saudáveis. longe, sem nunca conhecer a mãe. 

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medo é memória

 

medo é paralisia, timidez, ansiedade.
rédea curta.
medo têm todos os homens.
acima da raça, crença, classe, nacionalidade, clube. além do rótulo.
medo é condição humana. faz-nos acreditar.
motor do sonho, do conhecimento, da conquista.
uma questão de sobrevivência.
medo tem do outro lado a liberdade.
mundo de heróis.
iguais e diferentes, vencedores.
o princípio da esperança.
medo não tem no seu pior a morte.
dela nasce a memória.
na história, no livro, no disco rígido, no coração.
medo mau é o que temos de nós.
do ridículo. da solidão. de um beijo no escuro.
mede vence-se com partilha, troca.
um processo de transferência. de frontalidade em rede.
medo é do que somos feitos.
eterna matéria efémera.
 
2009
 
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escura. ou então estava sempre de noite. não havia luminosidade que reflectisse naquelas paredes e que secasse os complexos padrões em degradé cinza que se estendiam verticalmente à beira da janela por onde a água entrava a potes nos dias violentos de chuva daquele ano infernal. as divisões multicavam-se no espaço quase ao mesmo tempo em que o próprio sonho procurava dali uma saída. Ler mais…