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daydream_largefotografia de Viktoria Sorochinsky, Anne & Eve, Museu da Imagem de Braga

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L’ECUME DES JOURS WILL NOT TEAR US APART

 
publicação Viral Agenda +
local/data Porto, Outubro 2013
  
O que pode ter em comum o último filme de Michel Gondry com os Encontros da Imagem de Braga? Nada! …e tudo: ambos se encontram na música e se propõem a falar de amor. Os encontros estão a terminar, fica a nota para não faltar à próxima. O filme, porém, estará para estrear…
 
O mote é dado pelos Joy Division: Love Will Tear Us Apart é o tema que reúne as impressões fotográficas dos mais de 30 autores de 10 países que este ano integram os Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia. “O tempo acelerou e as relações humanas, tornaram-se mais urgentes”, explica a curadora, Ângela Berlinde, que substitui Rui Prata, o responsável pelo evento no seu longo percurso de 25 anos. “Julgou-se oportuno construir uma narrativa que contribua para uma reflexão consequente em torno das velhas/novas relações interpessoais”, retira-se das palavras da organização.
 
Em 20 diferentes espaços de Braga, com extensão no Porto, Lisboa e Fortaleza, partimos de um olhar leigo sobre a fotografia contemporânea para viajar por espaços bracarenses e experiências alheias, que tomamos como nossas, nesta necessidade de saciar a curiosidade sobre as histórias por detrás das imagens e de querer ver-e-saber-mais-longe sem sair do lugar…
 
E somos então uma das memórias do álbum de família de Duarte Amaral Neto, constituído por transferências de películas instantâneas para moleskines, numa espécie de caderno atemporal a lembrar que o registo físico é o que guardamos. Ou estamos sentados ao lado de uma tia de Lucía Herrero, a posar orgulhosamente num estúdio à beira-mar, para exibirmos as nossas férias no regresso ao trabalho. A experiência de mãe e filha, exiladas russas aos olhos de Viktoria Sorochinsksi, permitem espreitar a medo o processo solitário e fantasioso de uma experiência particular de maternidade. E se nos lembramos de uma relação que terminou, e do quanto podemos estar sozinhos com os outros, vemo-nos ao espelho de Laura Stevens, no incrível cenário do Mosteiro de Tibães, que vale por si a viagem no tempo. Os olhares tenros de cerca de 80 jovens propostas no âmbito do grande prémio de fotografia Emergentes DST são ainda um bom pretexto para beber da energia do espaço start up GNRation.
 

Estão representadas várias histórias de amor, várias memórias de família, várias experiências relacionais, as referências às coisas fundamentais da vida. Tal como no filme de Michel Gondry, os amigos, o amor, a gastronomia, a literatura. Mas aqui em cenários e poesias surreais, numa espécie de videoclip de realidades paralelas, igualmente numa alusão clara à reflexão que se impõe sobre a sociedade em imensa transformação.L’Ecume des Jours/A Espuma dos Dias, com Romain Duris e Audrey Tautou, é a história surrealista e poética de um homem idealista e inventivo, Colin, que encontra Chloé, uma jovem mulher que parece encarnar o blues de Duke Ellington. E mais o cozinheiro Nicolas e Chick, um amigo fanático pelo filósofo Jean-Sol Partre. São os elementos centrais das palavras de Boris Vian e dos olhos de Michel Gondry: o amor, a doença e a morte, numa atmosfera jazzy de Paris, com o piano que faz cocktails musicais e pernas que crescem quando dançam, um passeio de nuvem e espingardas feitas de calor humano e, por fim,… um arranca-corações. 

O que encontramos nos Encontros da Imagem de Braga são espaços simples e despojados, o que invariavelmente reflete o esforço atual para manter as iniciativas culturais de pé, mas pode transformar-se numa interessante condição de liberdade de olhar, ver e assimilar o que nos é proposto. E assim também no filme de Michel Gondry: o inconsciente que se sobrepõe à realidade obriga a sair da zona de conforto para permitir olhar o mundo de forma diferente. Os encontros estão a terminar, não faltar à próxima edição. O filme está para estrear, estar atento às datas. Tudo incerto, mas com liberdade de ver. Como na vida e no amor, e enquanto os dias se transformam em espuma.

O filme L’Ecoume Des Jours/A Espuma dos Dias está em exibição pelo país em Outubro/Novembro no âmbito da Festa do Cinema Francês, sendo apresentado no Porto, no Museu de Serralves, a 4 de Novembro, às 21 horas. Continua sem data a distribuição pelas salas de cinema do circuito comercial.

imagens: Viktoria Sorochinsky / Anne & Eve (Museu da Imagem)  +     |   Duarte Amaral Neto / Do Que Nos Lembramos Quando nos Lembramos de Nós (Museu Nogueira da Silva, Braga) +     |     Lucía Herrero / Tribos (Avenida da Liberdade, Braga) +     |     Laura Stevens / Us Alone (Mosteiro de Tibães, Braga) +     |     Michel Gondry / L’Ecume des Jours (Trailer) +

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ESPANHEM-ME POR FAVOR!… OU NEM POR ISSO

 
publicação Viral Agenda +
local/data Porto, Janeiro 2014
 
Rogo a Espanha para que nos reconquiste de modo urgente e definitivo! …era o poema cáustico daquela sessão das Quintas de Leitura de há uns 6 ou 7 anos atrás. Hoje dificilmente evocaríamos a ideia… Mas Espanha está cá, com uma antologia do fotojornalista Gervasio Sánchez e outras coisas.
 
Sobre o sítio onde o mar se acabou e a terra espera, de Pessoa, Saramago profetizou que, lá no Norte, ao meio, os Pirinéus e a Península Ibérica se transformam numa ilha, trazendo agarrada a si Andorra e largando Gibraltar no meio do mar, e fez nascer uma federação com portugueses e espanhóis unidos na diversidade.
 
A mesma ideia estava nas palavras lidas de forma mordaz por Isaque Ferreira nessa sessão já antiga das Quintas de Leitura, reuniões que o diseur definiu como muito perto dos lugares impossíveis, do inexplicável, da utopia… O poema que nos chamava a Espanha está na Pornografia Erudita de valter hugo mãe, a que se pode colar hoje, a propósito do que é a poesia, um fragmento do seu novo romance, A Desumanização, apresentado numa das últimas Quintas de 2013: A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Disse o meu pai. Nós não somos mais do que a carne do poema.
 
Estas foram apenas duas das já 150 edições das Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre programadas por João Gesta ao longo de 12 anos de salas cheias e sessões incríveis, números invulgares para um ciclo poético, certamente explicados pela combinação não convencional de escritores, músicos, bailarinos e outros artistas, alguns aqui dados a conhecer, entre valter hugo mãe, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Manuel António Pina, Vasco Graça Moura, Jorge Sousa Braga ou Rui Reininho, Pedro Abrunhosa, Bernardo Sassetti, Lula Pena, Clã, Dead Combo, António Zambujo, O’questrada, Samuel Úria, Norberto lobo, Best Youth ou Vera Mantero, Margarida Mestre, Luís Guerra, Mafalda Deville… só para referir alguns.
 
O Teatro do Campo Alegre tem novas Quintas para o primeiro trimestre de 2014: a 23 de janeiro, o poeta Nuno Júdice apresentado pelo jornalista Nicolau Santos, leituras de Teresa Coutinho e João Paulo Costa, com o saxofonista Mário Dinis Marques, fotografia de Nelson D’Aires e música de Elisa Rodrigues; a 27 de fevereiro, a presença do geógrafo/performer Álvaro Domingues e do poeta João Habitualmente, com o artista plástico JAS, leituras de Isaque Ferreira e música de CAPICUA; e a 20 de março, o convidado António Mega Ferreira à conversa com Fernando Luís Sampaio, com leituras de Filipa Leal e Pedro Lamares, o pianista Filipe Pinto-Ribeiro, imagem de João Queiroz, performance de Elisabete Francisco e música de Samuel Úria.
 
… e desse sonho ibérico que se lembrou aqui para dar o mote, não seremos hoje mais do que uma breve sucursal da grande corporação a oeste.
 
E se podemos ser carne do poema, somos definitivamente carne para canhão. E fala-se agora de fotojornalismo puro. A Antologia Gervasio Sánchez mostra o itinerário de 30 anos deste fotógrafo, jornalista e correspondente de guerra, que cobriu de forma independente e inconformada os cenários de guerra na América Latina, Europa, Ásia e África, de 1984 até hoje. Lê-se algures nas fontes virtuais sobre a norma do jornalista de guerra nunca poder tomar partido num conflito, regra que este fotógrafo desconhecido além-reino-vizinho não cumpre, pois em vez de reportar, denuncia: toma partido das vítimas. Mais do que qualquer palavra, confirma-se a fotografia como a única linguagem capaz de captar, num só instante, a nobreza e a infâmia do ser humano.
 
Entre a dependência da adrenalina óbvia deste ofício e muito provavelmente a incapacidade de voltar atrás perante o testemunho de tais realidades – o bastante para desconstruir, ou destruir completamente, a capacidade de viver e aceitar o mundo real – o trabalho deste fotógrafo apela à reflexão crítica sobre as consequências desta ordem mundial, designadamente da guerra, no futuro da humanidade. E, à parte do valor histórico e documental do que é mostrado, pode ser esse mesmo o grande foco: o de ver a cru – não aconselhável a pessoas-com-pouco-estômago, nem a crianças… como lhes poderíamos explicar tal ! – aquilo que optamos por ignorar quotidianamente.
 
A Antologia Gervasio Sánchez está em exposição no Centro Português de Fotografia, no Porto, até 2 de Março de 2014, e é um dos momentos da Mostra Espanha 2013, que tem em curso um vasto programa no Porto, Lisboa, Coimbra e Almada.
 
Da palavra afinada à imagem crua, do ideal ibérico ao estado-filial-da-gigante-empresa-anónima, da poesia à fotografia, da evocação ao mundo real, de Portugal e de Espanha, são propostas de agenda para quem não quer viver adormecido. 
 

imagens:  Menina Limão: Quintas de Leitura com Pedro Mexia, leituras de Teresa Coutinho, Rita Loureiro e Adriana Faria, música de Ana Deus/Osso Vaidoso e Ricardo Caló/Peixe Graúdo), dança com Olga Roriz, imagem de Menina Limão (2012)     |     Sara Moutinho: Quintas de Leitura com João Luís Barreto Guimarães e Golgona Anghel à conversa com Filipa Leal, leituras de Teresa Coutino e Rui Spranger, música de Joana Bagulho e Miguel Araújo, imagem de Joana Rego (2013)     |     Mostra Espanha 2013: Gervasio Sánchez – Centro de detención Tuol Sleng (Cambodja, 2007| Mostra Espanha 2013: Gervasio Sánchez – Anita Rojas con la maleta de su hijo desaparecido em 1975 (Chile, 2000)

 

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MULHER-DE-EMERGÊNCIA

Ensaio sobre a Mulher Moderna

 
revista Sharemag n.º 1 +
local/data Porto, Maio 2009
 
a mulher moderna levanta-se cedo, mas atrasa-se sempre. maquilha-se e rodopia perfeita em sapatilhas o dia inteiro. empenha-se naquele trabalho que faz de si a mulher realizada e independente, que lhe permite conduzir-se em quatro-rodas-autónomas nesse final de tarde às compras… para chegar a casa e cozinhar um delicioso jantar de coisas frescas e verdes. a mulher moderna come fruta e não tem vida para ginásios. arranja as sobrancelhas e depila as pernas e encravam-lhe os pêlos nas virilhas das tantas depilações que faz. a casa da mulher moderna é um palacete onde gasta as mãos porque não ganha o suficiente para pagar a uma mulher-a-dias que lhe lave, limpe, seque e engome a vida. ainda assim, a casa da mulher moderna está limpa, a mobília perfumada e as roupas estendidas nos armários ou noutro sítio qualquer do seu percurso de utilidade para seduzirem o corpo que as há-de vestir de enfiada na manhã seguinte.
 
a mulher moderna é incoerente e acredita no príncipe-do-cavalo-branco. é bonita, desejável, romântica, criativa e chega a casa e monta-o com requinte. há mulheres modernas que confiam nos homens modernos, que continuam a dormir muito depois do seu dia começar, mas que limpam a casa e arrumam a cozinha, põem a roupa a lavar e a secar e adiantam o jantar. quando essa mulher moderna chega a casa, o homem moderno recebe-a com um beijo, depois das mensagens da manhã e da tarde a lembrar que o amor existe. e por muitas horas de trabalho, poucas horas de sono ou violentos desarranjos hormonais, esta mulher moderna é para o seu homem moderno a mais bonita do mundo.
 
a mulher moderna sabe que ser mulher hoje é viver num limbo. é ser mulher educada por outras mulheres: crescer no paradigma cristão da avó-doméstica a preparar o jantar, o banho e o chinelo do avô, e da mãe-independente a multiplicar-se entre o emprego na rua e o trabalho em casa. a mulher moderna sabe que ser mulher hoje é gerir a luta entre o que herdamos, o que biologicamente somos e o que ambicionamos ser.
 
algures na matemática das horas entram os filhos, que não poderão tardar ou sujeitam-se a vir fora do prazo-de-validade-dos-óvulos-contados. mas antes disso a mulher moderna precisa de renovar o conhecimento, estudar, ler todos os livros de cabeceira e passar os olhos pelas reportagens que se amontoam na casa-de-banho em risco sério de desactualização. a mulher moderna tem personalidade e opinião. viu a exposição do oliveira centenário em serralves, assistiu ao blindness no cinema, acompanhou a vitória do obama nos estados unidos. aliás, não só sabe que o obama ganhou as eleições, como já pensou sobre isso e já fez piadas, porque a mulher moderna tem sentido de humor. conhece duas cidades do mundo por ano e visita sempre a família, que a mima muito.
 
… e onde se encaixam aqui as garrafas de vinho que bebe a mulher moderna? a mulher moderna tem peito para mais ou fígado para tanto e cura as ressacas com gurosan e sumo de laranja natural. a mulher moderna tem dias maus. em que é monótona comó o raio, em que pragueja o tempo todo, em que deseja até ter nascido com uma pila. mas vai sempre a jogo. a mulher moderna é uma jogadora agressiva, confundido os adversários: homens, mulheres e animais de estimação. o ser humano complica, a mulher moderna complica ainda mais, mas age apenas de acordo com o seu código genético, que é também cinco mil vezes mais complicado do que o homem moderno.
mas pode ser o oposto de tudo isto! a mulher moderna pode marimbar-se para os pêlos e assumir o bigode, cagar prá casa em pantanas e ignorar o que dizem os outros. a mulher moderna pode trocar a cidade pelo campo e acordar muito cedo para regar os narcisos e recolher os ovos frescos do galinheiro, de mp3 nas orelhas e disco externo de 500 gigas em casa, enquanto deixa a canja a cozer para depois encomendar uma camisola da la redoute pela internet.
 
a mulher moderna busca avidamente a vida moderna apenas porque quer e porque lhe apetece. a mulher moderna sabe que primeira definição de modernidade foi publicada em 1500 e que o que é moderno agora, amanhã já deixou de o ser. a mulher moderna admite que o adjectivo aqui pouco ou nada interessa e que o desafio maior da contemporaneidade é, apenas, poder optar e saber escolher. e que o mundo hoje é, de facto, mais certo, ainda que vivamos da esperança de que tudo volte a mudar de novo.
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