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 colaboração editorial.

 
ShareMag01-Final

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MULHER-DE-EMERGÊNCIA

Ensaio sobre a Mulher Moderna

 
revista Sharemag n.º 1 +
local/data Porto, Maio 2009
 
a mulher moderna levanta-se cedo, mas atrasa-se sempre. maquilha-se e rodopia perfeita em sapatilhas o dia inteiro. empenha-se naquele trabalho que faz de si a mulher realizada e independente, que lhe permite conduzir-se em quatro-rodas-autónomas nesse final de tarde às compras… para chegar a casa e cozinhar um delicioso jantar de coisas frescas e verdes. a mulher moderna come fruta e não tem vida para ginásios. arranja as sobrancelhas e depila as pernas e encravam-lhe os pêlos nas virilhas das tantas depilações que faz. a casa da mulher moderna é um palacete onde gasta as mãos porque não ganha o suficiente para pagar a uma mulher-a-dias que lhe lave, limpe, seque e engome a vida. ainda assim, a casa da mulher moderna está limpa, a mobília perfumada e as roupas estendidas nos armários ou noutro sítio qualquer do seu percurso de utilidade para seduzirem o corpo que as há-de vestir de enfiada na manhã seguinte.
 
a mulher moderna é incoerente e acredita no príncipe-do-cavalo-branco. é bonita, desejável, romântica, criativa e chega a casa e monta-o com requinte. há mulheres modernas que confiam nos homens modernos, que continuam a dormir muito depois do seu dia começar, mas que limpam a casa e arrumam a cozinha, põem a roupa a lavar e a secar e adiantam o jantar. quando essa mulher moderna chega a casa, o homem moderno recebe-a com um beijo, depois das mensagens da manhã e da tarde a lembrar que o amor existe. e por muitas horas de trabalho, poucas horas de sono ou violentos desarranjos hormonais, esta mulher moderna é para o seu homem moderno a mais bonita do mundo.
 
a mulher moderna sabe que ser mulher hoje é viver num limbo. é ser mulher educada por outras mulheres: crescer no paradigma cristão da avó-doméstica a preparar o jantar, o banho e o chinelo do avô, e da mãe-independente a multiplicar-se entre o emprego na rua e o trabalho em casa. a mulher moderna sabe que ser mulher hoje é gerir a luta entre o que herdamos, o que biologicamente somos e o que ambicionamos ser.
 
algures na matemática das horas entram os filhos, que não poderão tardar ou sujeitam-se a vir fora do prazo-de-validade-dos-óvulos-contados. mas antes disso a mulher moderna precisa de renovar o conhecimento, estudar, ler todos os livros de cabeceira e passar os olhos pelas reportagens que se amontoam na casa-de-banho em risco sério de desactualização. a mulher moderna tem personalidade e opinião. viu a exposição do oliveira centenário em serralves, assistiu ao blindness no cinema, acompanhou a vitória do obama nos estados unidos. aliás, não só sabe que o obama ganhou as eleições, como já pensou sobre isso e já fez piadas, porque a mulher moderna tem sentido de humor. conhece duas cidades do mundo por ano e visita sempre a família, que a mima muito.
 
… e onde se encaixam aqui as garrafas de vinho que bebe a mulher moderna? a mulher moderna tem peito para mais ou fígado para tanto e cura as ressacas com gurosan e sumo de laranja natural. a mulher moderna tem dias maus. em que é monótona comó o raio, em que pragueja o tempo todo, em que deseja até ter nascido com uma pila. mas vai sempre a jogo. a mulher moderna é uma jogadora agressiva, confundido os adversários: homens, mulheres e animais de estimação. o ser humano complica, a mulher moderna complica ainda mais, mas age apenas de acordo com o seu código genético, que é também cinco mil vezes mais complicado do que o homem moderno.
mas pode ser o oposto de tudo isto! a mulher moderna pode marimbar-se para os pêlos e assumir o bigode, cagar prá casa em pantanas e ignorar o que dizem os outros. a mulher moderna pode trocar a cidade pelo campo e acordar muito cedo para regar os narcisos e recolher os ovos frescos do galinheiro, de mp3 nas orelhas e disco externo de 500 gigas em casa, enquanto deixa a canja a cozer para depois encomendar uma camisola da la redoute pela internet.
 
a mulher moderna busca avidamente a vida moderna apenas porque quer e porque lhe apetece. a mulher moderna sabe que primeira definição de modernidade foi publicada em 1500 e que o que é moderno agora, amanhã já deixou de o ser. a mulher moderna admite que o adjectivo aqui pouco ou nada interessa e que o desafio maior da contemporaneidade é, apenas, poder optar e saber escolher. e que o mundo hoje é, de facto, mais certo, ainda que vivamos da esperança de que tudo volte a mudar de novo.
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