a floresta-de-lado-nenhum

Ao João, à Clara, aos amigos.

. . . . .

À noite, o João sonhava sempre o mesmo sonho. Os elefantes amarelos, que bebem de um lago mágico, sonham que têm asas e descobrem a porta para o céu azul… Mas não havia meio de lá chegar, acordava sempre antes de conseguir passar esta porta secreta para o mundo dos sonhos.

. . . . .

– Podemos ir ver os elefantes mamã? – pediu um dia. Queria aprender mais sobre estes animais e perceber porque voltava sempre ali.

– O elefante é um animal muito antigo, o maior da Terra! – explicou a mãe – pode pesar toneladas, é afectuoso e senhor de uma excelente memória, mas está em vias de extinção. E levou-o ao jardim zoológico.

– São perigosos os animais mamã, porque estão presos?

– Porque não sabem existir na nossa cidade, só na selva; sacrifica-se a sua liberdade para os podermos conhecer, para podermos saber como são…

. . . . .

Chegados ao recinto dos animais, encontram uma elefanta-mãe que passeia o seu elefante-filho. O João ficou deslumbrado! Que grandes eram, bem maiores do que imaginara, mas elegantes e delicados. Chamou por eles e o elefante-filho acudiu…

– Olá, eu sou o João! Como te chamas?

– Elefante.

– És então o elefante-Elefante…

– Isso mesmo.

– Queria muito conhecer-te e falar-te dum sonho. Duma canção! E duma floresta…

 

Chegavam os tratadores e a mãe-elefanta puxava o filho para o almoço de galhos e relva.

– A Floresta-de-lado-nenhum? – conseguiu dizer o elefante-Elefante, enquanto a mãe o empurrava – Volta noutro dia João! Eu também sonho com ela, volta e eu conto-te!

. . . . .

O jardim zoológico tinha animais abandonados para adopção. Havia tartarugas, cães e gatos, papagaios e outros pássaros, lagartos e iguanas, mas João fixou-se num coelho-japonês que cantarolava em português uma música sobre águas mágicas e sonhos. A mãe consentiu que o João o adoptasse, algo aliviada por não ter escolhido um dos bichos mais estranhos…

No caminho de regresso, conversaram:

– Tratas bem de mim? – perguntou-lhe o coelho-japonês.

– Sim, vamos ser amigos! – comprometeu-se o João.

E falaram da música e das águas mágicas. O coelho-japonês cantava os sonhos, a porta secreta, um céu livre e a água cristalina, uma árvore vermelha e o seu único fruto perfumado… mas tinha um problema: esquecia-se sempre do final da música! E voltava ao início, num imenso ataque de soluços…

. . . . .

O João e o coelho-japonês resolveram então pedir ajuda. Falaram com pais, avós e tios. Reuniram primos e amigos. Consultaram a professora Matilde e questionaram o alfarrabista da esquina. Esperaram a biblioteca itinerante e pesquisaram na Internet. Nada! Foi então que o João teve uma ideia!

– E se nos juntássemos com o elefante-Elefante?!? – disse ao coelho-japonês – Talvez juntos conseguíssemos decifrar o enigma.

E de novo foi ter com a mãe:

– Podemos ir ver os elefantes mamã?

. . . . .

A tarde estava solarenga e quente. O João e a mãe entraram no carro e seguiram.

– Olá João, voltaste!

– Sim, e este é o meu amigo, o coelho-japonês! Podes ajudar-nos a acabar o sonho?

– Acabar acabar, receio que não, mas talvez consiga fazer-nos lá chegar! Simples, basta escrever num pedaço de papel: “Sono leva-me à Floresta-de-lado-nenhum”, colocar debaixo da almofada e adormecer a pensar nisso. Com muita força!

– Boa! Encontramo-nos mais logo no sonho?

– Sim!!!

. . . . .

À noite, o João nem quis ver televisão; correu a deitar-se na cama… e sonhou. Logo encontrou o elefante-Elefante, que abriu a porta, e o coelho-japonês, que cantou… mas não terminou:

Elefantes amarelos

bebem água azul

sonham, voam, têm asas!

deixam as suas casas…

hip … elefantes amarelos

hip… deixam as suas casas…

 

–  Não me lembro!!! – assumia desanimado o coelho–japonês, num imenso ataque de soluços.

– Não faz mal amigos, vamos continuar! – gritava confiante o elefante-Elefante.

. . . . .

Entraram na mesma floresta a dentro, mas não viam nada. Cheirava a queimado, não havia meio de se deter o fogo que engolia os montes. Corriam com medo. Até que alcançaram o sopé da breve montanha, aqui já sem árvores assustadas nem nuvens de perigo. Em baixo, havia um vale iluminado pelas estrelas, que desenhavam o Norte.

– Olá miúdos! O que fazem neste sonho? – perguntou do cima de uma pedra uma criatura que seria qualquer coisa como uma mistura de um peixe com um pássaro…

– Procuramos o caminho da água mágica – disse o João a medo – Gostávamos de saber o que o existe para lá desse céu azul. Pode ajudar-nos?

– Eu sei tudo! – respondeu o peixe-pássaro – Já vi tudo e já estive em todo o lado, todas as cidades, todos os países, todas as montanhas e florestas, todos os mares e todas as profundezas, todos os céus e todas as nuvens. Não gosto de religiões, nem de tubarões e gosto sempre de ouvir todas as razões…

– Desculpe senhor peixe-pássaro – interrompeu o João – Mas temos pouco tempo, podemos acordar a qualquer momento.

– … Já estive entre todas as raças, falo todas as línguas e conheço todos os sóis, luas, planetas e cometas – prosseguiu o peixe-pássaro, sem sequer ter ouvido o João – Já li todos os livros, ouvi todas as canções e dancei todas as músicas…

– Senhor-peixe-pássaro, ajude-nos por favor! – gritaram em coro – Precisamos de alcançar a água azul!

– …O mundo, meus caros, gira todos os dias! E só os privilegiados aí conseguem chegar – respondeu, importunado, o peixe-pássaro – Têm de me dizer a palavra-passe!

. . . . .

Os três amigos vacilaram. Juntaram-se em roda a pensar no problema. E agora, como responderiam? Até que o elefante-Elefante arriscou:

– “Será… Floresta-de-lado-nenhum”? – disse a medo;

– “Água azul”! – gritou por cima o João.

O coelho-japonês tentava por tudo lembrar-se do resto da música, enquanto cirandava de um lado para o outro, perdido nos seus soluços. A letra da canção era a chave que procuravam! Os amigos impacientavam-se, gritando possíveis palavras-passe para o ar…

. . . . .

– Já sei, já me lembro! – gritou o coelho-japonês num soluço só – “O segredo da água azul está na árvore da Floresta-de-lado-nenhum”.

– Acertaste rapaz, parabéns! São praticamente… nenhuns… os que aqui conseguem chegar! – reconheceu o peixe-pássaro, acrescentando – Mas não se iludam! Falta-vos o passo principal…! Vou deixar-vos descer pelo caminho de musgo até ao lago que se esconde na curva. A partir daí, estão por vossa conta.

. . . . .

À medida que se aproximavam, começava a ouvir-se a música e evidenciavam-se as palavras que o coelho-japonês não tinha conseguido terminar:

Elefantes amarelos

bebem água azul

sonham, voam, têm asas!

Deixam as suas casas

para vir beber a mágica poção;

abrem-se as portas, têm razão!

Mas é na árvore que o segredo mora

e no único fruto vermelho seu filho,

que a cada Primavera que demora

cai na água e a transforma em magia,

para marcar na memória

e reinar a eterna alegria”.

. . . . .

O peixe-pássaro, que acompanhou o João e os amigos na descida, tentava explicar-lhes a imensidão do sítio onde o acabavam de chegar.

– Contam que no início dos mundos – dizia o peixe-pássaro – todas as florestas do mundo tinham uma árvore de frutos mágicos. Mas o tempo, a guerra e a poluição acabaram com isso. Sobrou apenas uma árvore nesta Terra, que dá um único fruto vermelho por ano.

– E a que sabe? – interrompeu o elefante-Elefante – Deve ser bom, posso comer?

– Nãoooooooo!!! – responderam todos em coro – É mágico, sagrado, especial, único! É preciso preservar, entendes? – berrava indignado o peixe-pássaro, acrescentando – As ameaças vêm do inesperado, do mais pequeno – dizia enquanto colocava os óculos na ponta do nariz – Há um livro, escrito há mais de cem anos, que fala disso… do mundo invadido por extraterrestres que acabam vencidos pelos mais minúsculos seres da Terra, sabiam disso!?

– Sabemos!!! – diziam todos, enfadados com as histórias intermináveis do senhor-doutor-mestre-peixe-pássaro, que continuava entusiasmado com a nova audiência.

– Nunca duvidem: sou pequeno, mas tenho em mim o maior dos poderes – o conhecimento! – contrapunha indignado o peixe-pássaro, enquanto se aproximavam do fim do percurso – Chegamos! Agora está nas vossas mãos. Não posso dar-vos qualquer indicação. “O caminho deve ser feito sozinho” – repetia em tom grave.

. . . . .

Os três amigos estavam à nora. Não tinham mais nenhuma pista. Desanimavam… e o João só se lembrava da frase que a sua mãe sempre repetia: “Às vezes é preciso deixar de ver para depois ver melhor”.

– Vamos pensar juntos! – encorajava o coelho-japonês.

– O que pode ser assim tão simples que se torna tão difícil? – confundia-se o elefante-Elefante…

 

E é nesta altura que uma farta cauda aparatosa anuncia a gata mais bonita que alguma vez haviam visto:

– Olá meninos! Eu sou a gata-turquesa-de-olhos-verdes, a guardiã – apresenta-se a felina, com pompa e circunstância – e na porta do mundo dos sonhos só eu ponho a mão. E vocês, quem são?

– Somos três amigos sonhadores! Gostávamos muito de saber como termina esta estória.

– Chegaram até aqui, é de louvar. Mas para poderem entrar, têm de me conseguir enganar. A gata não é de confiar…

– Sabemos que há uma porta que temos de abrir… mas não sabemos onde fica! – confessa o elefante-Elefante.

. . . . .

A gata era tão bonita quanto assustadora e os amigos estavam cheios de pressa de sair dali. O João tentava desenhar alto uma ideia:

– Ora… eu vejo, o elefante sente, o coelho-japonês canta, o peixe-pássaro sabe… ajudem-me amigos!

Um barulho estridente faz estremecer o chão debaixo dos seus pés! Bastava afinal apresentarem-se, dizerem quem eram. E mediante tal pensamento, coisa mais simples e de tamanha verdade, a-parede-de-galhos, que era afinal a porta, abriu-se diante deles:

– Bem-vindos! – afirma a Clara, uma menina de tez branca tão branca que se confundia com as nuvens nas quais o João e o seu amigo elefante-Elefante se queriam sentar para não caírem de espanto.

– E esta é a minha aia – acrescenta, apresentando a gata-turquesa-de-olhos-verdes – Estamos aqui para vos receber!

. . . . .

A Clara, sempre tão clara, explica-lhes tudo. Tarefa nada fácil, pois o senhor-doutor-mestre-peixe-pássaro, que acabou por seguir os três amigos no resto do caminho, faz questão de documentar cada detalhe…

– A vida na Terra apareceu há pouco mais de 3,5 mil milhões de anos e o homo sapiens e a primeira civilização…

– Assim não percebemos nada! – dizem os amigos, completamente perdidos, ignorando em bloco o peixe-pássaro.

– Venham, mais vale mostrar-vos, diz a Clara sempre tão clara, agarrando e arrastando todos floresta adentro.

– Onde vamos? – pergunta o João, inquieto.

– Xxxuuuuu – responde-lhe em tom calmo – Bebam a água azul!

. . . . .

Com as mãos em forma de concha, o João e os amigos bebem o líquido mágico… e conseguem ver então o que os seus olhos não haviam ainda atingido: o caminho para a Floresta-de-lado-nenhum!

Seguem então pelo trilho estreito, entre um matagal que se adensa a cada passo, desviando-se das silvas altas que quase não os deixam passar, e chegam a um imenso… e absolutamente incrível… precipício?!?

– Um céu de brinquedos! – grita o João – E de animais?…

– E música por todo o lado! – diz em infinito espanto o coelho-japonês!

– Quadros, livros… e palavras!? – interroga-se o peixe-pássaro, confessando entredentes – Eu próprio nunca cheguei até aqui…

– Uma colecção… de colecções? – interroga-se o João.

– Não! – esclarece a Clara sempre tão clara – É um céu de memórias!

. . . . .

Ficam em silêncio a tentar assimilar aquilo que era afinal um mundo sem tempo arquivado no universo. A projecção das memórias de todos os tempos.

Ali, todos voavam, tudo estava suspenso: o primeiro astronauta e um tigre da Malásia; o D. Sebastião e a Alice e mais uma baleia e um pé de feijão; um condor de ouro, Baco, a Mona Lisa e Cleópatra; um ramo de salsa, uma lata de ervilhas e uma cultura de fungos; todas as palavras soltas conjugadas em todas as prosas e poemas; o mesmo com as notas musicais, o piano de Beethoven e um conjunto de sintetizadores; um golo da selecção; um tanque de guerra, os dinheiros todos, uma nave espacial e uma incubadora de células; Sócrates, Hitler e Colombo a jogar à bola; a chegada do Homem à Lua e as duas guerras mundiais; um concerto dos Beatles e os Prémios Nobel da Paz; a Patagónia, o deserto do Saara e todas as paisagens da Terra numa só. Tudo flutuava sobre a árvore-do-fruto-mágico.

A árvore armazenava sob si a História do mundo. E o seu único fruto vermelho e mágico, uma vez caindo na água, tornava-a transparente, permitindo a quem a bebesse conseguir ver esse tesouro maior e encerrando-o, bem guardado, num céu azul de memórias.

. . . . .

– O Homem não aprende com a História – explica-lhes a Clara sempre tão clara – Destrói a natureza, inventa a guerra, esgota os recursos. E o mundo não pode acabar assim!

– Pois não! – grita o elefante-Elefante, que não estava a perceber patavina do que passava ali.

– … porque o Sol deixa de brilhar ou por não ter quem o saiba estimar – interrompe, incrédulo, o peixe-pássaro– Se calhar não sou assim tão sábio; sei só algumas coisas do meu tempo…

– Foi preciso inventar uma forma de guardar todas as coisas! – confirma a Clara sempre tão clara.

. . . . .

Ao João faltava-lhe o ar. Que infinito de … coisas e pessoas e ideias… que eram afinal as memórias do mundo desde a origem do planeta! Os amigos acompanhavam-no de boca aberta!

– Eu não existo – diz-lhe a Clara sempre tão clara – Pertenço às memórias do mundo. E tu, se quiseres, podes ficar aqui comigo.

– Assim como uma espécie de guardião do universo? – perguntava o João, espantado com o que lhes estava a acontecer e entusiasmado com a ideia.

. . . . .

O João deixou-se calado a olhar aquele céu-de-coisas-únicas e a tentar aprisionar toda a informação na sua própria memória. Não demorou muito a concluir uma resposta.

Em tom de despedida, abraçou a Clara sempre tão clara e com um sorriso enérgico disse:

– Não posso Clara, a minha tarefa é outra, tenho de ir cuidar do meu mundo! – e correu.

Os amigos seguiram-no, entrando à pressa num pequeno bote que a gata-turquesa-de-olhos-azuis preparava sob o lago azul para os levar de volta à entrada.

– Eu ficava!! Olha dormir nas nuvens todos os dias, não é para qualquer um – dizia o elefante-Elefante – E comer frutos mágicos, ah pois!

– Que nada! – interrompia o coelho-japonês – Ideia boa é a do João! Vamos tratar do nosso mundo… antes que passe à história! – acrescentava rindo.

– Há que saber pensar pela própria cabeça! – tentava concluir o peixe-pássaro, recuperando o seu tom filosófico… e chato… de sempre, enquanto acompanhava os amigos na viagem de regresso – Questionar o mundo, construir uma opinião… – insistia, sem se aperceber que já ninguém o ouvia. Os três aventureiros dos sonhos já dormiam profundamente, como que a preparar a aventura do novo dia…

. . . . .

mafalda martins, 2013