Category Archives: conclusões banais

mulher-de-emergência 4.2

a mulher moderna levanta-se cedo, mas atrasa-se sempre. maquilha-se e rodopia perfeita em sapatilhas o dia inteiro. empenha-se naquele trabalho que faz de si a mulher realizada e independente, que lhe permite conduzir-se em quatro-rodas-autónomas nesse final de tarde às compras… para chegar a casa e cozinhar um delicioso jantar de coisas frescas e verdes. a mulher moderna come fruta e não tem vida para ginásios. arranja as sobrancelhas e depila as pernas e encravam-lhe os pêlos nas virilhas das tantas depilações que faz. a casa da mulher moderna é um palacete onde gasta as mãos porque não ganha o suficiente para pagar a uma mulher-a-dias que lhe lave, limpe, seque e engome a vida. ainda assim, a casa da mulher moderna está limpa, a mobília perfumada e as roupas estendidas nos armários ou noutro sítio qualquer do seu percurso de utilidade para seduzirem o corpo que as há-de vestir de enfiada na manhã seguinte. Ler mais…

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tempos de crise

estamos em tempos de crise. o clima a mudar, as bolsas a cair, o petróleo a aumentar, a banca a estourar, a violência a subir e o estado a intervir. a democracia a falir? e o capitalismo a falhar. o que vem a seguir? Ler mais…

into the wild

 

calem-me os porquês! não vai ser especial a minha vida. não vai ser única a minha figura, nem eterna a minha memória. mas é nisso que sempre me fizeram crer! que me ditaram os livros, as aventuras épicas e os momentos de amor. as viagens, os lugares, os cenários. os filmes de super-heróis e os sonhos mal-amanhados. o conhecimento. o ninho certo dos pais e dos avós. a ciência ao serviço da medicina e o aumento da esperança de vida. a comunicação, o aquecimento central e os cremes-anti-rugas. o conforto. Ler mais…

este não é o meu tempo

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Foi nesta casa que nasceu o meu avô paterno. Em 1906, creio. Já morreu. Tinha 94 anos e eu uns 26… Não estou certa. Nunca tinha ido à aldeia, a Tresmundes. Só à outra, a da minha avó com quem me pareço, que se chama Limãos. Ambas ficam perto de chaves, entre as montanhas, na conclusão de estradas estreitas de terra batida. Quase sem habitantes. A casa foi sendo morada de outras pessoas. Ainda primos, com certeza, que não conheço. Mas o baú continua lá. A mala de viagem do pai do meu avô. Alguém que nasceu há já dois séculos e que gravou as suas iniciais numa arca [P.M.]. Ali foi colocada e ali permanece. O marco de um tempo que não é o meu. 2008

 

over the limit

… ou não! dou por mim a pensar nisso. nos nossos princípios e nos nossos limites. nos outros. em nós. e somos sempre dois! cada um no seu querer. e queremo-nos todos. numa fronteira atribulada de neurónios e feromonas.

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one-day-stand

há sempre um dia em que tropeçamos em alguém. alguém que fala com o coração e o sente na ponta dos dedos. que não precisa de capas, que isso é coisa de super-heróis ou de maus-da-fita. que usa apenas óculos de sol. para colorir os dias. ou para filtrar a falta de cor. a cor que sabe e que sente. que reflecte a luz branca e a transforma. como os nossos olhos fazem com as palavras ditas. alguém que nos fala sem dizer. em silêncio. que viaja connosco até ao outro lado do mundo, de malas feitas. ou sem elas, num sonho sonhado a dois. com uma fotografia na parede para lembrar. e uma música na ponta da língua para adormecer. alguém que nos toma e nos tem. na plenitude de um espaço sem tempo ou sobre um lençol que não existe debaixo das estrelas. e nos protege, em troca de uma carícia. alguém que ama como nós, sentido e sincero, sempre dado, sem ego e sem medo, na efemeridade de tudo o que existe. alguém que pode ser só um ou muitos. sempre alguém, nem que seja por um dia. 2008

+ conclusões banais

... há um gato que não deve ser feliz. vive aqui atrás, num pedaço de telhado, do qual não consegue sair. deve ter caído, em mais-pequeno, porque lhe vejo a mãe escura por perto. também eu estou aqui e à noitinha deito-lhe comida pela janela. creio que os vizinhos da varanda-que-dá-pró-pedaço-de-telhado também o fazem, na noite deles. o bicho, na sua alma negra, mia de volta em sinal de apreço. sempre preto e preso. mas só até ao dia em que aprender a saltar.   no meu quintal…

a vida é bela

chegar a casa:

– encontrar um lugar-quase-legal (não fosse o parquímetro… ou será parcómetro?);

– ranger os dentes ao arrumador que insiste em pedir “moedinha” várias a vezes ao dia sem perceber que o alvo é sempre o mesmo;

– cumprimentar o guarda-nocturno do quarteirão que, no cenário das casas escuras da baixa iluminada a amarelo, remete para londres há 50 anos atrás, ainda que sem o estripador… ou não;

– dar um cigarro ao segundo junkie que reconhece a vizinhança e diz boa-noite;

– abrir a porta e apanhar um susto-de-morte com os dois adolescentes do bairro mais próximo enrolados-em-beijos nas escadas;

– sentir o cheiro bom dos cozinhados do vizinho brasileiro do terceiro andar;

– abrir a porta, trancar e relaxar.

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as-pequenas-coisas…

empacotado.jpg

comecei a escrever com hífenes quando li o-deus-das-pequenas-coisas. a autora indiana fazia-o com maiúsculas. há conceitos que cabem melhor dentro destes comboios-de-palavras. uma espécie de compactação de ideias que responde às necessidades de velocidade e de imediatismo. e de superficialidade, pois assim não é preciso dizer tanto… até porque já não há tanto que dizer. e muito pouco para inventar. nada que imite a descoberta da roda ou do fogo… nem tão pouco que simule algo infinitamente menor do que isso. o nosso momento, esta migalha-de-tempo-de-vida, não é um épico! e a diferença, creio, está nas pequenas-coisas. nestas que estão aqui à mão. na palavra para inverter a-crise-e-o-mundo-e-o-preço-dos-combustíveis-e-a-falta-de-valores, mas isso fica para o próximo post. na liberdade de acção para reinventarmos a pessoa, essa que é a valia de não termos nascido na idade média. na possibilidade de atravessarmos a rua para descobrir o outro lado… e conhecermos a nossa sombra, individual e única. mas há um trajecto implícito: caminhar pela estrada antes de atravessar. e lá, no fim do percurso, que é sempre apenas mais um, podemos então morder a tarde-de-amora-com-sabor-a-amor e, quem sabe, roubar o beijo de alguém… como no filme. 2006

 

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diário de sombras

um diário para registar impressões, imagens, sensações.
para marcar os dias. para compreender melhor.
também para procurar confronto. partilhar.
e sobretudo para criar uma sombra… para não esquecer!