one-day-stand
há sempre um dia em que tropeçamos em alguém. alguém que fala com o coração e o sente na ponta dos dedos. que não precisa de capas, que isso é coisa de super-heróis ou de maus-da-fita. que usa apenas óculos de sol. para colorir os dias. ou para filtrar a falta de cor. a cor que sabe e que sente. que reflecte a luz branca e a transforma. como os nossos olhos fazem com as palavras ditas. alguém que nos fala sem dizer. em silêncio. que viaja connosco até ao outro lado do mundo, de malas feitas. ou sem elas, num sonho sonhado a dois. com uma fotografia na parede para lembrar. e uma música na ponta da língua para adormecer. alguém que nos toma e nos tem. na plenitude de um espaço sem tempo ou sobre um lençol que não existe debaixo das estrelas. e nos protege, em troca de uma carícia. alguém que ama como nós, sentido e sincero, sempre dado, sem ego e sem medo, na efemeridade de tudo o que existe. alguém que pode ser só um ou muitos. sempre alguém, nem que seja por um dia.
[listening: good friday - cocorosie]
há sol na rua*
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| « há sol na rua. gosto do sol mas não gosto da rua então fico em casa. à espera que o mundo venha, com as suas torres douradas e as suas cascatas brancas, com suas vozes de lágrimas e as canções das pessoas que são alegres. ou que são pagas para cantar! e à noite chega um momento em que a rua se transforma noutra coisa e desaparece sob a plumagem. da noite cheia talvez e dos sonhos dos que estão mortos. então saio para a rua. ela estende-se até à madrugada um fumo espraia-se muito perto e eu ando no meio da água seca, da água áspera da noite fresca. o sol voltará em breve. »* boris vian, je voudrais pas crever |
soledade explica…
sonhei que fugia. aflita, apavorada. de mãos cerradas, não fosse perder os filhos. sim, os filhos. que eram, na verdade, da terra mais do que meus. fugia com as mãos fechadas não fosse deixar cair as sementes. esses filhos que escondia nas mãos. os embriões-em-forma-de-pevide que, uma vez espetados na terra castanha fértil, cresceriam que nem um pé-de-feijão, mas em forma de corpo humano, de gente, com pernas e braços e olhos e coração. corria estrada fora em velocidade arrastada. fugia de quem me iria fazer mal. de quem me abriria as mãos à força e me levaria para sempre os filhos. que, uma vez plantados, cresceriam saudáveis. longe, sem nunca conhecer a mãe.
[listening: radiohead, in rainbows]


