dias de verão
que horas são?
« quando fechei os olhos, senti o cheiro do vento. uma aragem de maio, inchada como uma peça de fruta, com a parte de fora áspera e o interior doce e carnudo, a rebentar de sementes. a polpa aberta e escancarada aos elementos da natureza, libertando as suas sementes de encontro à pele nua dos meus braços e deixando ficar no ar um ténue rasto de dor. - que horas são? perguntou… »
>> reading: haruki murakami, “a rapariga que inventou um sonho” = mais informações AQUI
[este fim-de-semana: festival ollin kan em viladoconde e herbie hancock no palácio de cristal]
a verdade apanha-se com enganos
[a naifa / the last poets, festival de músicas do mundo, porto côvo/sines 2008]
« … quero ser amada só por mim / não por andar enfeitada / ser adorada mesmo assim / careca, nua, descarnada
com perfumes a presa é fácil / com jóias, casacos de peles / gosto do amor quando é difícil / e cheiro o meu hálito reles
quero ser amada à flor da pele / não quero peles de vison / amada p’lo sabor a mel / e não pela cor do baton
com cabeleira a presa é fácil / há quem se esconda atrás dos pelos / gosto do amor quando é difícil / e ser amada sem cabelos
quero que me beijem a caveira / o meu ossinho parietal / que se afoguem na banheira / p’lo meu belo occipital
com carne viva a presa é fácil / é ordinário e obsoleto / gosto do amor quando é difícil / quando me aquecem o esqueleto
quero ser amada p’la morte / p’los meus ossos de luar / quero que os cães da minha corte / passem as noites a ladrar
engano de alma ledo e cego / ó linda Inês posta em sossego imortal / diz adeus / sobe aos céus… »
… é um projecto interessante este da naifa, que interpreta letras curiosas. que “a verdade apanha-se com enganos” é um facto incontornável e por isso o vídeo da música fica aqui. a versão da “subida aos céus”, dos três tristes tigres, com letra de regina guimarães [em cima], foi um momento alto, e o vídeo original de 1993 pode aqui ser visto. os last poets, uns senhores dos 60, os supostos pais do hip hop, ditaram músicas de intervenção. as big bands americana e filandesa impressionaram e mais a voz morna da hermínia de cabo verde e os italianos-de-napoles com os seus barris-bottari, que deram baile. uma amostra dum festival que vou querer repetir.
vou ali dar um mergulho e já venho…
… e deitar um ouvido às músicas do mundo em porto covo/festival de sines.
>> listening: naifa, uma inocente inclinação para o mal [free download aqui / pass: www.portugal-albums.com]
cigarettes and chocolate milk
[rufus wainwright, casa das artes de famalicão, junho de 2008]
e foi o que foi, sem direito a mais nem menos. uma voz capaz de, sozinha, encher um auditório. e de tirar o fôlego dos que lá estavam. o piano e a guitarra como acompanhamento prodigioso, o humor como suporte, para quebrar a intensidade desconcertante de cada música. muitas das melodias ansiadas, com direito a uma “greek song” e a alguns “cigarettes and chocolate milk”. o momento “hallelujah” do cohen (…ou será do cage?) a apelar à lágrima. e ainda assim, duas-horas-e-picos e três encores depois, ouviam-se uns quantos “faltava aquela”, sempre mais uma, nos corredores de saída. pelo meio, uns assobios à alemanha, por quem iria torcer (azarito!) ao lado do namorado; uns piropos à selecção turca, não tivesse os jogadores mais giros; uns trocadilhos com a orquídea que trazia ao peito e o carpaccio de bacalhau que comera ao jantar; um elogio (?) à cidade do porto, “fantástica… mas surreal”; uma dica sobre o blackoutsabbath que promoveu e uma martelada no saint-john-the-baptist da sua terra natal. et voilá…
[listening: hallelujah]
o porto escuro…
= 42
eu, que nunca fui capaz de perceber a musicalidade da matemática, dei por mim a fazer contas. que nem aquele computador supremo sobre o qual já escrevi um dia… o mesmo que, noves-fora-nada, conclui que a reposta para o sentido da vida é objectiva, concisa e única: “42″. pus-me a contar pelos dedos: de quantas figuras gostamos?; quem são os nossos amigos?; quantas pessoas temos? contas feitas à vida, somei umas quantas figuras. não que o interesse se ache no algarismo. talvez na diversidade. por certo no bem-querer. gosto de um número grande de pessoas. gosto das pessoas. com muitas me encontro. em todas me descubro. numa casualidade quase desconcertante. não sei o que me reserva o meu 42. vou sabendo quem são as minhas pessoas.
[listening:kumpania algazarra... que é como dizer kusturica-em-português e que ao vivo é divertido]
dolce farniente
salta-pocinhas
apercebo-me só agora que nunca para mim fará sentido a vida se não houver um muro para saltar, um drama para resolver, uma pocinha para escorregar…
… e estou viciada nesta música: go tell the women / grinderman.





















