eu quero… [ou inquietação crónica]
« o mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos e é humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. o que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. o mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter. »
bernardo soares / fernando pessoa, episódio 53 de “o livro do desassossego” [o livro on-line AQUI]
que horas são?
« quando fechei os olhos, senti o cheiro do vento. uma aragem de maio, inchada como uma peça de fruta, com a parte de fora áspera e o interior doce e carnudo, a rebentar de sementes. a polpa aberta e escancarada aos elementos da natureza, libertando as suas sementes de encontro à pele nua dos meus braços e deixando ficar no ar um ténue rasto de dor. - que horas são? perguntou… »
>> reading: haruki murakami, “a rapariga que inventou um sonho” = mais informações AQUI
[este fim-de-semana: festival ollin kan em viladoconde e herbie hancock no palácio de cristal]
as-pequenas-coisas…*
comecei a escrever com hífenes quando li o-deus-das-pequenas-coisas. a autora indiana fazia-o com maiúsculas. há conceitos que cabem melhor dentro destes comboios-de-palavras. uma espécie de compactação de ideias que responde às necessidades de velocidade e de imediatismo. e de superficialidade, pois assim não é preciso dizer tanto… até porque já não há tanto que dizer. e muito pouco para inventar. nada que imite a descoberta da roda ou do fogo… nem tão pouco que simule algo infinitamente menor do que isso. o nosso momento, esta migalha-de-tempo-de-vida, não é um épico! e a diferença, creio, está nas pequenas-coisas. nestas que estão aqui à mão. na palavra para inverter a-crise-e-o-mundo-e-o-preço-dos-combustíveis-e-a-falta-de-valores, mas isso fica para o próximo post. na liberdade de acção para reinventarmos a pessoa, essa que é a valia de não termos nascido na idade média. na possibilidade de atravessarmos a rua para descobrir o outro lado… e conhecermos a nossa sombra, individual e única. mas há um trajecto implícito: caminhar pela estrada antes de atravessar. e lá, no fim do percurso, que é sempre apenas mais um, podemos então morder a tarde-de-amora-com-sabor-a-amor e, quem sabe, roubar o beijo de alguém… como no filme.
*… ou o 42.º post.
este não é o meu tempo
[tresmundes, trás-os-montes, maio de 2008]
foi nesta casa que nasceu o meu avô paterno. em 1906, creio. já morreu. tinha 94 anos e eu uns 26… não estou certa. nunca tinha ido à aldeia, a tresmundes. só à outra, a da minha avó com quem me pareço, que se chama limãos. ambas ficam perto de chaves, entre as montanhas, na conclusão de estradas estreitas de terra batida. quase sem habitantes. a casa foi sendo morada de outras pessoas. ainda primos, com certeza, que não conheço. mas o baú continua lá. a mala de viagem do pai do meu avô. alguém que nasceu há já dois séculos e que gravou as suas iniciais numa arca [P.M.]. ali foi colocada e ali permanece. o marco de um tempo que não é o meu.
[listening: feist, the reminder]
>> “o apocalipse dos trabalhadores” - novo romance de valter hugo mãe
há sol na rua*
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| « há sol na rua. gosto do sol mas não gosto da rua então fico em casa. à espera que o mundo venha, com as suas torres douradas e as suas cascatas brancas, com suas vozes de lágrimas e as canções das pessoas que são alegres. ou que são pagas para cantar! e à noite chega um momento em que a rua se transforma noutra coisa e desaparece sob a plumagem. da noite cheia talvez e dos sonhos dos que estão mortos. então saio para a rua. ela estende-se até à madrugada um fumo espraia-se muito perto e eu ando no meio da água seca, da água áspera da noite fresca. o sol voltará em breve. »* boris vian, je voudrais pas crever |










