eu quero… [ou inquietação crónica]
« o mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos e é humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. o que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. o mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter. »
bernardo soares / fernando pessoa, episódio 53 de “o livro do desassossego” [o livro on-line AQUI]
… eu sou boa nisto
[praga, abril 2008]
procrastinação é…. adiar, prolongar o começo, sonhar-acordado.
>> o filme neste link: procrastination is…
>> o festival desta semana neste link: curtas-metragens de vila do conde.
…
over the limit
… ou não! dou por mim a pensar nisso. nos nossos princípios e nos nossos limites. nos outros. em nós. e somos sempre dois! cada um no seu querer. e queremo-nos todos. numa fronteira atribulada de neurónios e feromonas. somos tanta coisa e tanta gente que nos perdemos nos limites. precisamente aqueles que, ainda que timidamente, fizemos questão de destruir. esses dos nossos-outros-eus das gerações anteriores, que agora suamos para reproduzir. porque perseguimos exactamente o mesmo fim: paixão! …companhia, mimo, protecção, amor. uma família, de sangue ou não. trabalho, realização. honestidade, lealdade e amizade. viagens e animais de estimação. nas suas muitas equações possíveis. e queremos tudo! sob ameaça de amuarmos para o mundo, como se ele se fosse importar com isso. e com intensidade. sem pudor nem receio de pedir o que não damos. não damos por falta de atitude. ou porque não sabemos. perdemos-nos na tradução. na informação. somos pessoas-mosaico. estórias paralelas ou caminhos que se cruzam. sempre um link para outra coisa qualquer. e sobra-nos espaço! diz-se p-o-s-s-i-b-i-l-i-d-a-d-e. que, à luz da história-mãe-da-humanidade, se traduz em liberdade. utópica, ilusória, manipulada, chamem-lhe o que quiserem. mas é uma liberdade. pequenininha. que infelizmente não é para todos. mas que nos leva a furar barreiras. permite-nos quebrar o silêncio! a mim. ao outro. a cada um de nós. a todos os que se debatem diariamente com o vazio emocional do dia de amanhã. porque somos nós que riscamos a fronteiras… de consciência, de vontade, de desejo, de coerência, de equilíbrio, de honestidade, de pensamento. esse “limite” que é uma espécie de “novo pecado”, de super-ego renovado no seu papel de super-herói. que nos conduz nas relações e nas acções e que nos trava delas. um limite tão novo, que ainda não sabemos. não nos sabemos ser nele.
>> sábado, 14 de junho, às 15h = impressoimproviso = muuda (porto)
>> todos os dias, das 13h às 24h = “a tela de uma história que não se acende”, exposição de fotografia de ana pereira = silo espaço cultural (norteshopping)
estrangeiros para sempre
[katowice - polónia, abril 2008]
… diziam-me ontem: “sinto-me um pouco vazia. neste momento estou deitada no parapeito da minha janela a acordar com hong kong pela última vez. está muito nevoado e quase não se vêem as torres mais altas. mas elas estão lá, e vão ficar… eu é que sou mais um visitante a ir embora”.
não será sempre assim… em tudo?
>> para ver: paulo pimenta
consignação
one-day-stand
há sempre um dia em que tropeçamos em alguém. alguém que fala com o coração e o sente na ponta dos dedos. que não precisa de capas, que isso é coisa de super-heróis ou de maus-da-fita. que usa apenas óculos de sol. para colorir os dias. ou para filtrar a falta de cor. a cor que sabe e que sente. que reflecte a luz branca e a transforma. como os nossos olhos fazem com as palavras ditas. alguém que nos fala sem dizer. em silêncio. que viaja connosco até ao outro lado do mundo, de malas feitas. ou sem elas, num sonho sonhado a dois. com uma fotografia na parede para lembrar. e uma música na ponta da língua para adormecer. alguém que nos toma e nos tem. na plenitude de um espaço sem tempo ou sobre um lençol que não existe debaixo das estrelas. e nos protege, em troca de uma carícia. alguém que ama como nós, sentido e sincero, sempre dado, sem ego e sem medo, na efemeridade de tudo o que existe. alguém que pode ser só um ou muitos. sempre alguém, nem que seja por um dia.
[listening: good friday - cocorosie]
telegraficamente…
… em contra-tempo. sempre o tempo, que não me chega! mas a vida parece querer começar a mudar e, com os ares do verão à mistura, os dias são alegres. entretanto, o meu computador perdeu a cabeça e com ela a memória e as fotografias acumulam-se em fila de espera no novo super-hiper-mega-disco. o impressoimproviso correu bem e os registos da parede dos maus hábitos estarão aí em breve. assim como os de sábado, que ainda vem, no bolhão, onde a recém-criada associação à qual pertenço vai fazer uma intervenção, roubando um pedaço de céu para lá colocar uma nuvem-voadora-de-balões-brancos… ainda que eu não tenha uma posição radical nesta questão: o bolhão é actualmente um espaço em decadência que não oferece dignidade às pessoas que o utilizam, reclamando uma mudança necessária… mas não p.f. para mais um centro comercial! nos entretantos deste tempo-com-tão-pouco-tempo, uma sugestão: a extensão no norte do festival indielisboa, no velho cinema trindade, a começar já hoje.
[listening: the kills, midnight bloom - "tape song"]
sentido obrigatório
já lá vão uns anos. estava a fazer uma reportagem sobre manipulação genética na forum ambiente, a revista em que trabalhava na altura, quando uma colega, a sofia, me contou a história, que acabei por utilizar na introdução do texto, do famoso “42”. ela estava a ler um livro, que contava a super-cruzada de um grupo alienígena de seres super-inteligentes, que haviam construído um super-computador. o “pensador profundo”, assim foi baptizada a super-máquina, que tinha por missão obter a resposta à pergunta fundamental sobre o universo: “qual é o sentido da vida?” sete milhões e meio de anos de processamento depois, o computador vomitou uma resposta: “42”.
mas podemos ir mais longe. fox mulder, na série dos X-files que explorava a teoria da conspiração, morava no apartamento 42; o diabólico número 666, se decomposto em 6 x 6 + 6, resulta em 42, que é também número original de deuses da mitologia grega; a cidade de jerusalém tem uma área de 42 milhas quadradas, enquanto que a faixa de gaza tem uma extensão de 42 quilómetros; no livro do país das maravilhas, alice é impedida de entrar no tribunal para não cumprir a lei que proibe o acesso a pessoas gigantes, que é a lei número 42; geralmente as pessoas começam a notar que estão velhas a partir dos 42 anos. eeeeee, claro!, todos estes factos foram comprovados 42 vezes. comecem a olhar para os lados, pois vai lá estar um 42… e antes isso do que um 31!
= 42
eu, que nunca fui capaz de perceber a musicalidade da matemática, dei por mim a fazer contas. que nem aquele computador supremo sobre o qual já escrevi um dia… o mesmo que, noves-fora-nada, conclui que a reposta para o sentido da vida é objectiva, concisa e única: “42″. pus-me a contar pelos dedos: de quantas figuras gostamos?; quem são os nossos amigos?; quantas pessoas temos? contas feitas à vida, somei umas quantas figuras. não que o interesse se ache no algarismo. talvez na diversidade. por certo no bem-querer. gosto de um número grande de pessoas. gosto das pessoas. com muitas me encontro. em todas me descubro. numa casualidade quase desconcertante. não sei o que me reserva o meu 42. vou sabendo quem são as minhas pessoas.
[listening:kumpania algazarra... que é como dizer kusturica-em-português e que ao vivo é divertido]
dar à língua
estou um pouco confusa
nunca eu pensei, quando neste carnaval me fantasiei de ricardo-pereira-araújo-a-fazer-de-floribela, que fosse ter tantas razões para continuar a dizer-que-estou-um-pouco-confusa…
[listening: portishead, "third"]
salta-pocinhas
apercebo-me só agora que nunca para mim fará sentido a vida se não houver um muro para saltar, um drama para resolver, uma pocinha para escorregar…
… e estou viciada nesta música: go tell the women / grinderman.
a vida é bela
chegar a casa:
- encontrar um lugar-quase-legal (não fosse o parquímetro… ou será parcómetro?);
- ranger os dentes ao arrumador que insiste em pedir “moedinha” várias a vezes ao dia sem perceber que o alvo é sempre o mesmo;
- cumprimentar o guarda-nocturno do quarteirão que, no cenário das casas escuras da baixa iluminada a amarelo, remete para londres há 50 anos atrás, ainda que sem o estripador… ou não;
- dar um cigarro ao segundo junkie que reconhece a vizinhança e diz boa-noite;
- abrir a porta e apanhar um susto-de-morte com os dois adolescentes do bairro mais próximo enrolados-em-beijos nas escadas;
- sentir o cheiro bom dos cozinhados do vizinho brasileiro do terceiro andar;
- abrir a porta, trancar e relaxar.
sair de casa:
- abrir a porta, trancar e apanhar o elevador-íntimo-assim-baptizado-pelo-valter;
- esperar os segundos-da-praxe para que a porta se abra, esperando não ser hoje o dia-não das avarias, pois o telemóvel está sem saldo;
- seguir para o carro, fazer figas para que esteja lá, sem mossa ou estrago e, já agora, sem multa, pois já passa das 9;
- abrir o iogurte-líquido-de-kiwi e beber;
- sorrir-em-amarelos para o polícia municipal que está com cara de ainda não ter começado a caçada;
- dizer bom-dia ao rapaz giro das chaves, à senhora-sempre-à-porta-da-mercearia e ao vizinho da loja de ferragens;
- entrar no carro, ligar o rádio e seguir.
[listening: the kills, midnight boom]
… porquê?
porque raios é tão difícil sair da idade dos porquês?
manual de instruções para conclusões banais
1. precisar de ideias, mais do que de factos e por vezes de pessoas;
2. constatar o óbvio, pois o essencial nem sempre está ali à mão;
3. ter muitas certezas-quase-absolutas, não vá ser a incoerência ser a chave do equilíbrio;
4. acreditar no impossível, porque a fé está fora de moda;
5. não-se-saber-por-onde-se-vai… mas-saber-que-não-se-vai-por-aí;
6. arriscar o pretensiosismo de responder às perguntas-mãe do universo;
7. ser dramático e, com jeitinho, teatral:
8. ter visto muitos episódios do espaço 1999.
[listening: goldfrapp, seventh tree]



























