diário de sombras

qual é o teu crime?

Posted in impressoimproviso, trabalhos by maf* on 18 Dezembro, 2008

“qual é o teu crime?” | impresso improviso, sexta-feira, 19 dezembro, plano b | manipulação geo de souza, fotografia ana pereira | texto mafalda martins

 

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havia um muro bem alto que separava o mundo de uma caverna escura, onde se mantinha prisioneiro um grupo de homens desde sempre. acorrentados e privados de luz, as sombras dos outros homens que passavam frente à caverna eram a única coisa que alguma vez haviam visto. a alegoria de platão tem tantos séculos quantos os necessários para nos lembrar da nossa eterna condição de prisioneiros. prisioneiros do bem e do mal, das armas que disparamos, da comida que desperdiçamos, das tecnologias que inventamos. prisioneiros das leis que roubamos para enriquecer ou para comer e que infringimos para estacionar e para não pagar. prisioneiros da verdade e da felicidade, seja lá isso o que for… prisioneiros da animalidade e do nascer-comer-cagar-foder-procriar-dormir-e-morrer. prisioneiros da consumo, do trabalho, do dia e da noite, da razão e da falta dela, da paixão, da ambição, do ar parar respirar e viajar, do mar para mergulhar e pescar. dos vícios também. e das linguagens, da etnias, das massas corporais, das fisionomias, das diferenças sexuais. prisioneiros de um mundo que volta e meia ameaça explodir. prisioneiros do comodismo, a viver atrás da sombra, a ver o mundo da secretária, a deixar a vida acontecer na televisão. prisioneiros da gravidade, pois de outra forma seríamos eventualmente uma matéria inerte a vaguear pelo espaço. e não fosse assim, talvez acabássemos prisioneiros de um futuro pré-condicionado, em exércitos de homens perfeitos e todos iguais, videovigiados a tempo inteiro. livre é aquele que pensa. crime é ser prisioneiro da ignorância ou da indiferença. porque a sombra, afinal, não era tudo… havia uma imagem. e, à frente dela, uma pessoa.

o verbo

Posted in conclusões, diário by maf* on 16 Dezembro, 2008

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vou escrever uma coisa diferente. com palavras novas, um verbo crente. outros sons e pronunciações, estrangeirismos e outras conclusões. ou apenas uma frase elementar. com um adjectivo enfático e uma dúvida singular. um destinatário que não o mundo, que não a saudade. um dizer na minha primeira pessoa para uma terceira pessoa que sejas tu. não faz mal se não for verdade. às vezes três palavras bastam para criar uma ficção. eu, ele e ela, as três pessoas dessa conjugação. foram, aliás, três os eles e três as elas, os que ousaram tentar. e eu só uma, conjugada na primeira pessoa do singular. destinada a estar entre os que quiseram enganar o verbo.

 

para ver >> mais um número da CRU A.

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mulher-de-emergência [4.2]

Posted in conclusões, diário by maf* on 15 Dezembro, 2008

… ou pensamento conjunto*

 

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a mulher moderna levanta-se cedo, mas atrasa-se sempre. maquilha-se e rodopia perfeita em sapatilhas o dia inteiro. empenha-se naquele trabalho que faz de si a mulher realizada e independente, que lhe permite conduzir-se em quatro-rodas-autónomas nesse final de tarde às compras… para chegar a casa e cozinhar um delicioso jantar de coisas frescas e verdes. a mulher moderna come fruta e não tem vida para ginásios. arranja as sobrancelhas e depila as pernas e encravam-lhe os pêlos nas virilhas das tantas depilações que faz. a casa da mulher moderna é um palacete onde gasta as mãos porque não ganha o suficiente para pagar a uma mulher-a-dias que lhe lave, limpe, seque e engome a vida. ainda assim, a casa da mulher moderna está limpa, a mobília perfumada e as roupas estendidas nos armários ou noutro sítio qualquer do seu percurso de utilidade para seduzirem o corpo que as há-de vestir de enfiada na manhã seguinte.

 

a mulher moderna é incoerente e acredita no príncipe-do-cavalo-branco. é bonita, desejável, romântica, criativa e chega a casa e monta-o com requinte. há mulheres modernas que confiam nos homens modernos, que continuam a dormir muito depois do seu dia começar, mas que limpam a casa e arrumam a cozinha, põem a roupa a lavar e a secar e adiantam o jantar. quando essa mulher moderna chega a casa, o homem moderno recebe-a com um beijo, depois das mensagens da manhã e da tarde a lembrar que o amor existe. e por muitas horas de trabalho, poucas horas de sono ou violentos desarranjos hormonais, esta mulher moderna é para o seu homem moderno a mais bonita do mundo.

 

a mulher moderna sabe que ser mulher hoje é viver num limbo. é ser mulher educada por outras mulheres: crescer no paradigma cristão da avó-doméstica a preparar o jantar, o banho e o chinelo do avô, e da mãe-independente a multiplicar-se entre o emprego na rua e o trabalho em casa. a mulher moderna sabe que ser mulher hoje é gerir a luta entre o que herdamos, o que biologicamente somos e o que ambicionamos ser.

 

algures na matemática das horas entram os filhos, que não poderão tardar ou sujeitam-se a vir fora do prazo-de-validade-dos-óvulos-contados. mas antes disso a mulher moderna precisa de renovar o conhecimento, estudar, ler todos os livros de cabeceira e passar os olhos pelas reportagens que se amontoam na casa-de-banho em risco sério de desactualização. a mulher moderna tem personalidade e opinião. viu a exposição do oliveira centenário em serralves, assistiu ao blindness no cinema, acompanhou a vitória do obama nos estados unidos. aliás, não só sabe que o obama ganhou as eleições, como já pensou sobre isso e já fez piadas, porque a mulher moderna tem sentido de humor. conhece duas cidades do mundo por ano e visita sempre a família, que a mima muito.

 

… e onde se encaixam aqui as garrafas de vinho que bebe a mulher moderna? a mulher moderna tem peito para mais ou fígado para tanto e cura as ressacas com gurosan e sumo de laranja natural. a mulher moderna tem dias maus. em que é monótona comó o raio, em que pragueja o tempo todo, em que deseja até ter nascido com uma pila. mas vai sempre a jogo. a mulher moderna é uma jogadora agressiva, confundido os adversários: homens, mulheres e animais de estimação. o ser humano complica, a mulher moderna complica ainda mais, mas age apenas de acordo com o seu código genético, que é também cinco mil vezes mais complicado do que o homem moderno.

 

mas pode ser o oposto de tudo isto! a mulher moderna pode marimbar-se para os pêlos e assumir o bigode, cagar prá casa em pantanas e ignorar o que dizem os outros. a mulher moderna pode trocar a cidade pelo campo e acordar muito cedo para regar os narcisos e recolher os ovos frescos do galinheiro, de mp3 nas orelhas e disco externo de 500 gigas em casa, enquanto deixa a canja a cozer para depois encomendar uma camisola da la redoute pela internet.

 

a mulher moderna busca avidamente a vida moderna apenas porque quer e porque lhe apetece. a mulher moderna sabe que primeira definição de modernidade foi publicada em 1500 e que o que é moderno agora, amanhã já deixou de o ser. a mulher moderna admite que o adjectivo aqui pouco ou nada interessa e que o desafio maior da contemporaneidade é, apenas, poder optar e saber escolher. e que o mundo hoje é, de facto, mais certo, ainda que vivamos da esperança de que tudo volte a mudar de novo.

 

[*texto realizado a partir dos contributos do post mulher-de-emergência [0.1]]

 

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