“um amor a contragosto”

« poderá andar-se metido num amor a contragosto? claro que sim.
um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada poderá fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco.
“reconquista-me!”, diz o objecto desse amor a contragosto, entremostrando-se e furtando-se logo de seguida. e o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.
como se chega – e para quê – a uma situação destas?
por muitos caminhos e para muitos fins. mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. o sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. é mais. mais sentimento, mais tormento.
“mas que figurões!”, dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. é que eles – o sofrente e o que faz sofrer – não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva.
de um amor a contragosto dificilmente se sai. é como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo.
talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer:
– olha do que me safei! – o mundo recobrará cor e significado.
quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar esse processo de salvação. a caparica não é longe. »
*alexandre o’neill, “uma coisa em forma de assim”, 1980
[listening: charlotte gainsbourg, "the songs that we sing">> ouvir AQUI]
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esse oneil é do catano. uma coisa em forma de assim é uma delicia. londres permanece magnifica. ficava aqui todos os dias. saudades tuas.
Quando era pequenito fiquei preso no lodo do rio lima. Quanto mais me tentava libertar mais me afundava (o lodo tem esse efeito) e ir ao fundo significava a morte certa. Sabes como é que me safei??? Uma pessoa deu-me a mão e puxou-me para cima. Acho que nos os remoinhos dá para fazer o mesmo
Beijinhos sem naifas, hahhahaha