diário de sombras

“um amor a contragosto”

Posted in diário, livros by maf* on 21 Agosto, 2008

« poderá andar-se metido num amor a contragosto? claro que sim.

um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada poderá fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco.

“reconquista-me!”, diz o objecto desse amor a contragosto, entremostrando-se e furtando-se logo de seguida. e o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.

como se chega – e para quê – a uma situação destas?

por muitos caminhos e para muitos fins. mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. o sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. é mais. mais sentimento, mais tormento.

“mas que figurões!”, dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. é que eles – o sofrente e o que faz sofrer – não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva.

de um amor a contragosto dificilmente se sai. é como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo.

talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer:

– olha do que me safei! – o mundo recobrará cor e significado.

quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar esse processo de salvação. a caparica não é longe. »

 

*alexandre o’neill, “uma coisa em forma de assim”, 1980

 

[listening: charlotte gainsbourg, "the songs that we sing">> ouvir AQUI]

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2 Respostas

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  1. subtil said, on 24 Agosto, 2008 at 7:17 am

    esse oneil é do catano. uma coisa em forma de assim é uma delicia. londres permanece magnifica. ficava aqui todos os dias. saudades tuas.

  2. Nuno said, on 25 Agosto, 2008 at 8:09 pm

    Quando era pequenito fiquei preso no lodo do rio lima. Quanto mais me tentava libertar mais me afundava (o lodo tem esse efeito) e ir ao fundo significava a morte certa. Sabes como é que me safei??? Uma pessoa deu-me a mão e puxou-me para cima. Acho que nos os remoinhos dá para fazer o mesmo :)

    Beijinhos sem naifas, hahhahaha


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