into the wild
calem-me os porquês! não vai ser especial a minha vida. não vai ser única a minha figura, nem eterna a minha memória. mas é nisso que sempre me fizeram crer! que me ditaram os livros, as aventuras épicas e os momentos de amor. as viagens, os lugares, os cenários. os filmes de super-heróis e os sonhos mal-amanhados. o conhecimento. o ninho certo dos pais e dos avós. a ciência ao serviço da medicina e o aumento da esperança de vida. a comunicação, o aquecimento central e os cremes-anti-rugas. o conforto. … e estaria tudo tão bem não fosse a maldita obsessão da liberdade. e da verdade. como se fossem objectos capazes de ser pegados em mãos. eterna é a inquietação que daí nasce. que faz correr-para ou fugir-de. nem sei!… tão frenético é o ritmo sucessivo e confuso dessa auto-consumição, da qual me torno dependente, como se de adrenalina se tratasse. a certa altura vejo-me aqui como em qualquer outro lugar. i get into the wild… tal como no filme. onde a busca da essência do espírito humano se faz pelas experiências, pela necessidade de ensaiar uma vida individual e solitária, e que acaba, no limite da morte que nos colhe a todos, na constatação de uma felicidade que afinal só se vive partilhada. não é preciso ir tão longe, creio. lá sem nada, aqui com tudo, estão sempre próximos os extremos. porque a busca é justamente a mesma: essa cobiçada verdade dos livros, essa presumida liberdade dos filmes, esse pretenso dom que nos tornará especial a vida ou nela nos fará particulares. a dado ponto, esses de-onde-venho, para-onde-vou, o-que-faço-aqui revelam-se porquês absolutamente inúteis… sobretudo porque há outras importantes perguntas-com-resposta para fazer.
>> seing: into the wild, sean penn/john krakauer [AQUI]
>> listening: cowboy junkies, sweet jane [AQUI]
“um amor a contragosto”

« poderá andar-se metido num amor a contragosto? claro que sim.
um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada poderá fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco.
“reconquista-me!”, diz o objecto desse amor a contragosto, entremostrando-se e furtando-se logo de seguida. e o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.
como se chega – e para quê – a uma situação destas?
por muitos caminhos e para muitos fins. mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. o sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. é mais. mais sentimento, mais tormento.
“mas que figurões!”, dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. é que eles – o sofrente e o que faz sofrer – não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva.
de um amor a contragosto dificilmente se sai. é como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo.
talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer:
– olha do que me safei! – o mundo recobrará cor e significado.
quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar esse processo de salvação. a caparica não é longe. »
*alexandre o’neill, “uma coisa em forma de assim”, 1980
[listening: charlotte gainsbourg, "the songs that we sing">> ouvir AQUI]
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nesta meia-hora de verão…
… as exposições de david goldblatt em serralves e de vírgilio ferreira no CPF
… e um filminho brutal do BLU.
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quando a nortada…
… nos rouba a praia, nós fugimos com o sol para o campo.
>> a nuvem voadora já está on-line. espreitar AQUI!
[listening: steppenwolf, born to be wild]
na idade das trevas
”viagem medieval”, santa maria da feira, agosto 2008: SA marionetas (alcobaça) e mandrágora (vila do conde/gondomar).
eu quero… [ou inquietação crónica]
« o mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos e é humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. o que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. o mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter. »
bernardo soares / fernando pessoa, episódio 53 de “o livro do desassossego” [o livro on-line AQUI]















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