há sol na rua*
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| « há sol na rua. gosto do sol mas não gosto da rua então fico em casa. à espera que o mundo venha, com as suas torres douradas e as suas cascatas brancas, com suas vozes de lágrimas e as canções das pessoas que são alegres. ou que são pagas para cantar! e à noite chega um momento em que a rua se transforma noutra coisa e desaparece sob a plumagem. da noite cheia talvez e dos sonhos dos que estão mortos. então saio para a rua. ela estende-se até à madrugada um fumo espraia-se muito perto e eu ando no meio da água seca, da água áspera da noite fresca. o sol voltará em breve. »* boris vian, je voudrais pas crever |
problema de expressão
a vida é bela
chegar a casa:
- encontrar um lugar-quase-legal (não fosse o parquímetro… ou será parcómetro?);
- ranger os dentes ao arrumador que insiste em pedir “moedinha” várias a vezes ao dia sem perceber que o alvo é sempre o mesmo;
- cumprimentar o guarda-nocturno do quarteirão que, no cenário das casas escuras da baixa iluminada a amarelo, remete para londres há 50 anos atrás, ainda que sem o estripador… ou não;
- dar um cigarro ao segundo junkie que reconhece a vizinhança e diz boa-noite;
- abrir a porta e apanhar um susto-de-morte com os dois adolescentes do bairro mais próximo enrolados-em-beijos nas escadas;
- sentir o cheiro bom dos cozinhados do vizinho brasileiro do terceiro andar;
- abrir a porta, trancar e relaxar.
sair de casa:
- abrir a porta, trancar e apanhar o elevador-íntimo-assim-baptizado-pelo-valter;
- esperar os segundos-da-praxe para que a porta se abra, esperando não ser hoje o dia-não das avarias, pois o telemóvel está sem saldo;
- seguir para o carro, fazer figas para que esteja lá, sem mossa ou estrago e, já agora, sem multa, pois já passa das 9;
- abrir o iogurte-líquido-de-kiwi e beber;
- sorrir-em-amarelos para o polícia municipal que está com cara de ainda não ter começado a caçada;
- dizer bom-dia ao rapaz giro das chaves, à senhora-sempre-à-porta-da-mercearia e ao vizinho da loja de ferragens;
- entrar no carro, ligar o rádio e seguir.
[listening: the kills, midnight boom]
… porquê?
porque raios é tão difícil sair da idade dos porquês?
soledade explica…
sonhei que fugia. aflita, apavorada. de mãos cerradas, não fosse perder os filhos. sim, os filhos. que eram, na verdade, da terra mais do que meus. fugia com as mãos fechadas não fosse deixar cair as sementes. esses filhos que escondia nas mãos. os embriões-em-forma-de-pevide que, uma vez espetados na terra castanha fértil, cresceriam que nem um pé-de-feijão, mas em forma de corpo humano, de gente, com pernas e braços e olhos e coração. corria estrada fora em velocidade arrastada. fugia de quem me iria fazer mal. de quem me abriria as mãos à força e me levaria para sempre os filhos. que, uma vez plantados, cresceriam saudáveis. longe, sem nunca conhecer a mãe.
[listening: radiohead, in rainbows]
os pós-modernos
a crise
manual de instruções para conclusões banais
1. precisar de ideias, mais do que de factos e por vezes de pessoas;
2. constatar o óbvio, pois o essencial nem sempre está ali à mão;
3. ter muitas certezas-quase-absolutas, não vá ser a incoerência ser a chave do equilíbrio;
4. acreditar no impossível, porque a fé está fora de moda;
5. não-se-saber-por-onde-se-vai… mas-saber-que-não-se-vai-por-aí;
6. arriscar o pretensiosismo de responder às perguntas-mãe do universo;
7. ser dramático e, com jeitinho, teatral:
8. ter visto muitos episódios do espaço 1999.
[listening: goldfrapp, seventh tree]
auto-de-pressão
a ana não gostou. e disse-me. na verdade, nem eu. mas não o sei dizer doutra forma. fiquei presa ao receio de não saber, de não saber dizer. perdi-me nas palavras, nas pessoas. não sei se me perdi delas. e encontrei uma certeza: a de que gosto de dizer e de que já não tenho medo. só medos. gosto de registar os momentos e de os reproduzir na imagem e na palavra. sem pretensões. gosto de os limar de forma a torná-los meus. sem pressões. a razão? simples: sou viciada em conclusões banais.
[listening: cat power, jukebox]
rafinée
foram três meses sem nada para dizer. um silêncio necessário, quando o mais importante é dizer-pra-dentro… e baixar as expectativas, aceitar os sonhos perdidos, reciclar os objectivos, desafiar o futuro. acho que crescer é isso: aceitar sem nunca desistir. e é bom.
[listening: goldfrapp, seventh tree]














